terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Em 1958 o Campeonato dos golpes baixos

Em 1958 havia duas divisões no futebol de Minas Gerais: a “Divisão Extra” que era a da Capital e organizada pela Federação Mineira e a “Divisão Especial” que era de Juiz de Fora e organizada pela Liga daquela cidade. E eram divididas, mesmo! Uma se considerava mais importante do que a outra. Tanto o Campeonato da Extra quanto da Especial eram regionais e englobavam equipes de várias cidades. Eram indiferentes e estavam pouco se fudendo um para o outro.

Era como se em Minas tivéssemos duas federações e dois campeonatos distintos. Foram vãs as tentativas de unirem os dois certames. E devido a politicagem tipicamente mineira, Minas não tinha o seu “campeão máximo”. Sim, porque desde 1927, os estatutos da Federação Mineira previam a disputa do título máximo de “campeão mineiro” entre os vencedores de ambos os campeonatos, que nunca ocorreu.

Quando o América sagrou-se campeão da Extra de 1957 e o certame da Especial estava prestes a ser decidido entre Tupi e Olimpic de Barbacena, o jornal Diário da Tarde de 23/01/1958 protestou contra a omissão da Federação em providenciar com antecipação a marcação das partidas pela decisão do título mineiro: “A propósito consta do calendário da entidade mineira o jogo entre o campeão da extra e de juiz de fora. O certame de Juiz de Fora está prestes a terminar, mas até o momento não se cogita de reservar a data. A entidade montanhesa parece ignorar a existência do calendário”.

A fórmula Siderúrgica
Antes da disputa do Campeonato de 1958 o Siderúrgica propôs as extinções das divisões “Extra” e “Especial” e a criação de um Campeonato Mineiro dividido em várias regiões do Estado com os campeões de cada uma decidindo o título de campeão mineiro. A proposta que foi apoiada por todos os círculos esportivos do Estado e que ficou conhecida como “fórmula Siderúrgica” enxugaria o calendário do futebol mineiro e alavancaria o progresso de muitas equipes do interior que não tinham campeonatos para disputar.

A fórmula revolucionária levou um duro golpe, quando da noite para o dia surgiu a notícia de que a “Divisão Extra” não apenas seria mantida, como teria o ingresso de mais 6 equipes sendo 5 delas do interior: Bela Vista (Sete Lagoas), Curvelo (Curvelo), Guarani (Divinópolis), Pedro Leopoldo (Pedro Leopoldo), Uberaba (Uberaba) e Renascença (Belo Horizonte).

Somando-se aos 10 clubes América, Atlético, Cruzeiro, Sete (Belo Horizonte), Asas (Lagoa Santa), Democrata (Sete Lagoas), Meridional (Conselheiro Lafaiete), Metalusina (Barão de Cocais), Siderúrgica (Sabará) e Villa Nova (Nova Lima) a divisão passou a ter 16 participantes.

A Federação comemorou a entrada dos cinco clubes do interior na “divisão extra” e promoveu o “torneio dos novos” entre eles em fevereiro que teve o Bela Vista como campeão. Por outro lado, os clubes da capital temiam o fracasso financeiro do certame, caso fosse disputado por 16 clubes e propuseram um campeonato com apenas 8 clubes que seriam selecionados num torneio de acesso denominado “torneio eliminatório”.

Os indigestos Asas e Metalusina
O Campeonato deveria ter sido disputado por 10 clubes, como estava ocorrendo há alguns anos, mas o América não digeria a participação do Asas, de Lagoa Santa e do Metalusina, de Barão de Cocais, e promoveu um golpe contra estes dois clubes propondo a redução de 10 para 8 participantes. Para o América, as partidas contra o Asas e o Metalusina resultavam em baixas arrecadações e prejuízo financeiro para o Campeonato.

O Metalusina foi fundado em 1939 na Compania das Usinas Siderúrgicas de Barão de Cocais e foi admitido na Divisão Extra em 1946. O Asas era o time da fábrica de aviões de Lagoa Santa e foi admitido na Extra em 1952. Os times seguiam a mesma política na formação de seus plantéis: jogadores não aproveitados ou veteranos dos clubes da capital. Como não tinham grandes pretensões terminavam os certames entre a parte intermediária e a lanterna da tabela de classificação.

O Asas e o Metalusina eram aceitos na Divisão Extra com a condição de pagarem uma quantia aos clubes da capital para mandar seus jogos em suas respectivas cidades sedes. Assim o que incomodava os clubes da capital era o aspecto técnico. Tanto Asas como Metalusina não eram atrações e, portanto, não enchiam estádios.

O Torneio de Acesso para a escolha dos 8 participantes do Campeonato foi disputado entre 27 de abril e 12 de outubro de 1958, em turno e returno, com rodadas duplas, em Belo Horizonte. O que não se previa era que os novos clubes do interior entrariam fortes na disputa. O Bela Vista e o Uberaba garantiram-se entre os oito. O Cruzeiro classificou-se a duras penas numa partida extra pela 8ª vaga contra o Renascença e o Villa Nova foi eliminado.

O Torneio de Acesso terminou com a seguinte classificação: 1º Atlético, 2º América, Democrata e Sete, 5º Uberaba, 6º Siderúrgica, 7º Bela Vista, 8º Cruzeiro, 9º Renascença, 10º Meridional, 11º Pedro Leopoldo, 12º Villa Nova, 13º Asas, 14º Metalusina, 15º Curvelo e 16º Guarani.

O Villa Nova tentou virar a mesa alegando que o Acesso não tinha amparo judicial e que tinha vaga garantida nos certames da extra por ser um dos fundadores (que nunca foi) da Federação Mineira de Futebol. De nada adiantou as alegações do Villa que acabou ficando de fora.

O prêmio ao mais irregular
Por causa do Torneio de Acesso que apontou os 8 classificados para o Campeonato de 1958, o certame só começou em fins de outubro e varou o ano de 1959. Dividido em dois turnos distintos, o título foi decidido entre os vencedores de cada fase. Esse tipo de sistema provou ser o mais fuleiro, porque premiou o Atlético, que foi o time mais irregular de todo o Campeonato, quando sagrou-se campeão do 1º turno e lanterna do 2º sem nenhuma vitória.

O América, que foi o campeão da Cidade de 1957, tinha o melhor plantel. No clássico do 1º turno deu um vareio de bola no Atlético no clássico válido pela última rodada a ponto do atacante Miguel tripudiar e humilhar os adversários alvinegros ao sentar-se na bola durante o jogo. O Atlético que, já naquela época, sofria da “síndrome de Estocolmo”, que é aquela em que o torturado se apaixona pelo torturador, quis contratá-lo em outubro do ano seguinte.

O mesmo aconteceria com o atacante Paulinho Maclaren no clássico contra o Cruzeiro no Campeonato Brasileiro de 1996, quando ao marcar o gol que decretou a derrota alvinegra por 2 a 1 saiu tripudiando a mascote do galo na comemoração. O Atlético foi atrás dele dois anos depois para contratá-lo.

O Cruzeiro foi o time mais regular e caso o Campeonato fosse disputado no sistema de pontos corridos teria sido o campeão. E não foi apenas o sistema de disputa que o prejudicou, mas a forte influência do América no Tribunal de Justiça Desportiva, o TJD. O Cruzeiro ficou de fora da decisão pelo título, devido a um golpe promovido pelo América naquele setor da Federação. É que a última rodada do 2º turno foi decisiva para as pretensões de três clubes: América, Cruzeiro e Uberaba empatados na liderança com 8 pontos cada. O Cruzeiro passou pelo Atlético com uma vitória por 1 a o, mas Uberaba e América empataram em dois gols no estádio Boulanger Pucci, em Uberaba, e morreram abraçados.

Daí surgiu o maior absurdo daquele Campeonato, quando o Uberaba combinado com o América, entrou com um recurso pedindo a anulação da partida acusando o seu próprio estádio de estar em condições irregulares! E o objetivo era para ambos (América e Uberaba) beneficiarem-se com a marcação de um novo jogo para terem uma segunda chance de, pelo menos, disputarem uma partida decisiva extra contra o Cruzeiro.

O TJD em mais uma de seus aberrantes golpes contra o Cruzeiro ao longo da história acatou o pedido, após consultar a súmula do árbitro Luiz Pereira Filho, o Luiz Guarda, que denunciou que as medidas do campo e do alambrado do Boulanger Pucci estavam irregulares! Outra partida foi marcada e o América venceu o Uberaba conquistando o direito de disputar o título do 2º turno contra o Cruzeiro.

Por causa da vitória do América, o Campeonato ficou paralisado por quase um mês para que o alviverde fosse cumprir uma excursão com a devida autorização da Federação Mineira. Ao retornar o América venceu o Cruzeiro na última partida da melhor de três (as duas primeiras terminaram empatadas) e foi para a decisão contra o Atlético.

Cansado devido a maratona de jogos amistosos e as três partidas contra o Cruzeiro que cumpriu em um mês, o América não foi o mesmo time que derrotou o Atlético nas duas fases do certame. E, assim como começou, o Campeonato de 1958 terminou com o seu último golpe baixo. Foi decidido na segunda partida com um pênalti inexistente marcado a favor do Atlético que, com duas vitórias, eliminou a possibilidade de uma terceira partida e terminou como campeão da divisão extra.

O derradeiro golpe viria acontecer na escolha do “campeão mineiro” para a disputa do 1º Campeonato Brasileiro que começaria em 1959 programado para ser disputado apenas entre os campeões de cada estado. A Federação Mineira, mais uma vez, tratou o Campeonato de Juiz de Fora como de outro galáxia, ignorou seus próprios estatutos, atropelou o calendário oficial e sem marcar a decisão do título mineiro entre os campeões das duas divisões proclamou o Atlético como “campeão mineiro” de 1958.