terça-feira, 7 de setembro de 2010

E no 7 de setembro o Cruzeiro não dependia mais de Tostão


O capitão Piazza posa para a foto ao lado do jovem Palhinha

A data nacional de 7 de setembro em que comemoramos independência do Brasil em 1822, também serviu como um marco na história do Cruzeiro. Nesta data enfrentamos o rival Atlético na decisão do Campeonato Mineiro de 1972. A vitória e o título vieram com dois gols do ex-junior Palhinha: 2 a 1.

O caneco estadual foi o primeiro conquistado sem o ídolo Tostão na era Mineirão. O craque havia sido negociado ao Vasco na maior negociação entre clubes brasileiros. Mais do que isso, na grande decisão, o time jogou também sem Dirceu Lopes e demonstrou que não dependia mais de sua mais famosa dupla de craques.

O ano de 1972 começou com uma bomba dentro do Clube. Enquanto o time excursionava pela Ásia, o presidente Felício Brandi estava em Belo Horizonte fechando a contratação do treinador Yustrich, que era um antigo sonho do clube. Os jogadores e o técnico Orlando Fantoni ficaram sabendo da contratação através da imprensa e uma crise se instalou de imediato.

Fantoni quis retornar ao Brasil e foi convencido pelos jogadores a ficar, mas Tostão reuniu a imprensa numa coletiva no hotel em que a delegação estava hospedada em Bangkok, na Tailândia, para anunciar que não renovaria o seu contrato com clube assim que retornasse ao Brasil.

Tostão culpou o presidente Brandi pela sua decisão, pois não concordava com a justificativa apresentada para a troca de treinador de que o plantel precisava de disciplina.

Por outro lado, a vinda de Yustrich motivou o retorno do ídolo Raul. O goleiro estava em litígio com o clube desde 1971, quando entrou na justiça através dos advogados do Atlético, dentre eles Adelchi Ziller. Raul ganhou o passe na justiça e quando estava para assinar contrato com o rival mudou de idéia.

Raul admirava o trabalho de Yustrich, que era o único no país que fazia um treino especial para goleiros. Na época não existia o tal "treinador de goleiros". Assim o goleiro sentiu que, com Yustrich, ganharia melhor forma e retornaria a Seleção Brasileira.

Tostão ainda atuou nas três primeiras partidas do estadual antes de ser negociado ao Vasco e foi substituído na equipe pelo atacante Palhinha, que já vinha se destacando desde que foi promovido da categoria júnior.

Yustrich chegou ao clube para modernizar alguns departamentos. Fez uma lista de exigências de tudo o que precisava e foi prontamente atendido pelo presidente. Este era o diferencial do treinador em relação aos outros que atuavam no país.

No entanto, Yustrich não tinha limites. Uma discussão com o diretor Furletti no vestiário do estádio Cristiano Osório, após a vitória por 1 a 0 sobre a Caldense, decretou a sua demissão.

Naqueles tempos o material esportivo era de total responsabilidade do Clube e os fornecedores não eram lá essas coisas. Faltavam peças na rouparia e Yustrich proibiu jogadores de presentear atletas adversários e torcedores com as suas camisas.

Após o jogo em Poços, um representante da Sociedade São Vicente de Paula, de Três Corações, adentrou o vestiário cruzeirense em companhia do vice-presidente Furletti, para apanhar a camisa do atacante Roberto Batata, que era nascido naquela cidade, para uma rifa beneficente.

Yustrich proibiu Batata de entregar a camisa e repreendeu Furletti dizendo que ele era a autoridade máxima do plantel. Furletti retrucou dizendo que o vice-presidente era a autoridade máxima no Clube.

Assim que a delegação retornou a Belo Horizonte, a diretoria se reuniu e decidiu demitir o treinador. Uma carta foi redigida para ser entregue a Yustrich que morava num sítio em Pedro Leopoldo.

Yustrich era temperamental, briguento e andava armado. Contam que o supervisor Robson José foi até a residência do treinador, enfiou a carta por debaixo da porta, bateu a campainha e saiu correndo.

O auxiliar Ílton Chaves, que contava com a simpatia e o apoio de todo o plantel, foi finalmente efetivado no cargo. Era a chance que aguardava desde 1968.

O certame de 1972 foi marcado pelo equilíbrio das campanhas entre Cruzeiro e Atlético nas três fases do certame. Como terminaram a fase final com o mesmo número de pontos, o título foi decidido numa partida desempate em 7 de setembro de 1972.

Por causa da violência dos zagueiros adversários, Dirceu Lopes ficou de fora das últimas partidas do certame. A decisão contra o rival seria a primeira do clube na era Mineirão sem a dupla Tostão e Dirceu responsáveis pelo título brasileiro de 1966 e pelo penta estadual de 1965 a 1969.

O clássico foi equilibrado. O time venceu o primeiro tempo por 1 a 0 com gol de Palhinha e levou o empate na segunda etapa com um gol de bicicleta do Dadá Maravilha. A partida terminou empatada em 1 a 1 sendo necessária uma prorrogação de mais 30 minutos.

E o jovem Palhinha, aos 9 minutos, marcou o gol do título e se consagrou como o mais novo ídolo cruzeirense. O título veio confirmar a todos que o Cruzeiro continuaria o mesmo time vencedor mesmo sem o ídolo Tostão.

CRUZEIRO 2 x 1 ATLÉTICO
07/09/1972 - Campeonato Mineiro (Decisão) - Mineirão (Belo Horizonte, MG)
Público: 63.011 (Cr$ 402.097,)
Árbitro: Silvio Gonçalves
Auxiliares: Aluísio Gonzaga e José Felipe
Gols: Palhinha 36’; Dario (bicicleta) 61’; Palhinha 9 do 2o da prorrogação
Cruzeiro: Hélio, Lauro, Darci, Fontana, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Luiz Carlos (Eduardo), Roberto Batata (Baiano), Palhinha, Lima. T: Ílton Chaves
Atlético: Marzukiewizc, Oldair, Raul Fernandes, Vantuir, Cláudio Mineiro, Vanderley, Toninho, Guerino (Serginho), Lola, Dario, Romeu. T: Telê Santana