sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Taça Minas Gerais e a sua longa trajetória


O Cruzeiro derrotou o América duas vezes pelo mesmo placar de 2 a 1 na decisão do primeiro turno do Campeonato Mineiro de 1984, que correspondia ao título de "campeão da taça minas gerais". Por ter sido a terceira conquista consecutiva, o Cruzeiro ficou com a posse definitiva da Taça.


Neste domingo as 10 e meia da manhã, o tradicional clássico do triângulo mineiro, entre Uberlândia e Uberaba, irá decidir mais uma Taça Minas Gerais.

O Uberaba já se sagrou campeão da primeira versão da taça em 1980 numa decisão polêmica contra o América. Na segunda versão do troféu, que voltou a ser disputado a partir de 1999, o colorado luta pela segunda conquista consecutiva, já que é o atual vencedor, pois superou o Villa Nova na decisão de 2009.

O Uberlândia venceu a taça em 2003. Na primeira edição da taça, foi vice em 1981 e 1986.

A primeira versão da Taça Minas Gerais aconteceu entre 1973 e 1986. Segundo o regulamento, o clube que conquistasse o troféu por três vezes consecutivas ou cinco alternadas, ficaria com a sua posse definitiva.

Assim, o Cruzeiro ficou com o troféu em 1984, quando o conquistou por três vezes consecutivas, já que havia vencido em 1982 e 1983. 

A conquista de 1984 veio numa decisão contra o América. O Cruzeiro derrotou o alvi-verde duas vezes pelo placar de 2 a 1 nas partidas decisivas e levou a taça pro Barro Preto.

Esse foi o time do Cruzeiro que derrotou o Atlético por 1 a 0, em 29 de julho
de 1984, em partida válida pela primeira fase do primeiro turno do Estadual.
Em pé: Vítor, Ademar, Eugênio, Ailton, Douglas e Luis Cosme
Agachados: Eduardo, Seixas, Palhinha, Tostão e Joãozinho
Essa foi a campanha do título do Cruzeiro em 1984 que correspondia ao 1º turno do campeonato mineiro

PRIMEIRA FASE DO 1º TURNO
03/06 - CRUZEIRO 4 x 2 GUARANI
Seixas 2, Palhinha, Tostão (Cru); Alisson, Carlinhos (Gua)
09/06 - AMÉRICA 0 x 1 CRUZEIRO
Tostão (Cru)
16/06 - ALFENENSE 1 x 1 CRUZEIRO
Luciano (Alf); Eduardo (Cru)
24/06 - UBERLÂNDIA 3 x 0 CRUZEIRO
Geraldo Touro, Sérgio Ramos, Vivinho (Ubl)
01/07- CRUZEIRO 2 x 1 UBERABA
Eduardo, Tostão (Cru); Netinho (Ubr)
08/07 - DEMOCRATA-GV 3 x 0 CRUZEIRO
Jairo, Paulo Roberto, Rubinho (Dem)
15/07 - CRUZEIRO 3 x 0 CALDENSE
Eduardo, Joãozinho, Seixas (Cru)
22/07 - CRUZEIRO 2 x 0 VILLA NOVA
Quirino, Tostão (Cru)
29/07 - ATLÉTICO 0 x 1 CRUZEIRO
Luizinho-contra (Cru)
05/08 - CRUZEIRO 1 x 0 VALÉRIO
Seixas (Cru)
12/08 - DEMOCRATA-SL 1 x 1 CRUZEIRO
Rogério (Dem); Seixas (Cru)
02/09 - TUPI 0 x 3 CRUZEIRO
Joãozinho 2, Seixas (Cru)
09/09 - CRUZEIRO 1 x 0 NACIONAL-U
Carlinhos (Cru)

Os quatro primeiros colocados da primeira fase que se classificaram para as semifinais do 1º turno foram: 1º Cruzeiro (20 pontos), 2º Guarani (18 pontos), 3º Villa Nova (16 pontos) e 4º América (15 pontos).

América e Uberlândia empataram em número de pontos, mas o time da capital obteve mais vitórias. O Atlético terminou a fase em 6º lugar com 14 pontos.

SEMIFINAL DO 1º TURNO
12/09 - VILLA NOVA 1 x 1 CRUZEIRO
Erivelto (Vil); Carlinhos (Cru)
16/09 - CRUZEIRO 3 x 2 VILLA NOVA
Ademar, Eduardo, Tostão (Cru); Elísio, Osmar (Vil)

DECISÃO DO 1º TURNO
19/09 - AMÉRICA 1 x 2 CRUZEIRO
Almir (Ame); Carlinhos, Seixas (Cru)
23/09 - CRUZEIRO 2 x 1 AMÉRICA
Seixas 2 (Cru); Adilson (Ame)



CRUZEIRO 2 x 1 AMÉRICA
23/09/1984 - Campeonato Mineiro (decisão do 1º turno) - Mineirão (Belo Horizonte, MG)
Público: 39.678 (Cr$ 98.276.000,)
Árbitro: Maurílio José Santiago
Gols: Seixas 58’e 85’/ Adilson 5’
Cruzeiro: Vitor, Carlos Alberto, Geraldão (Luiz Cosme), Aílton, Ademar, Douglas, Eduardo, Tostão, Carlinhos, Seixas, Joãozinho (Palhinha). T: João Francisco
América: Jorge Hipólito, Colatina, João Batista, Eraldo, Vaner, Adauto, Tepa, Luiz Alberto (Beto), Almir, Adilson, Zezé (Zezinho). T: Jair Bala
CV: Tostão (C); Adilson (A)


A conquista do 1º turno significou a classificação direta do Cruzeiro para a decisão do Campeonato Mineiro, independente da sua classificação no 2º turno.


Como a CBF dava duas vagas para Minas Gerais na Copa Brasil e a Federação Mineira indicava o campeão e o vice estadual, a conquista da taça minas gerais representou ao Cruzeiro a classificação antecipada para o Brasileirão de 1985.


O Cruzeiro acabou conquistando o 2º turno do Campeonato Mineiro e o título estadual daquele ano numa decisão polêmica contra o Atlético. No entanto, por causa dos recursos impetrados pelo Atlético na justiça desportiva, o título e o troféu de campeão mineiro de 1984 só foram homologados seis anos depois.

A TRAJETÓRIA DA TAÇA MINAS GERAIS

A Taça Minas Gerais foi instituída em 1973 para ser disputada num torneio que antecedesse o Campeonato Mineiro por todos os clubes da divisão-extra.

O torneio não era oficial, ou seja, caso um clube não se inscrevesse não sofreria sanções como, por exemplo, ser rebaixado para a divisão de acesso ou suspenso de competições da Federação Mineira por três anos.

Como o calendário do futebol brasileiro era muito bagunçada nos anos 1970, a Federação Mineira colocou o troféu em disputa em outra competições.

Assim apenas em 1973, 1977 e 1980 a taça foi disputada num torneio próprio, sendo que nas duas últimas não houve as participações de Cruzeiro e Atlético.

Em 1975 e 1976, a Taça foi colocada em disputa no Torneio Seletivo que iria apontar os participantes do Campeonato Mineiro. Cruzeiro e Atlético participaram da taça, apesar de já estarem confirmados no campeonato estadual, pois eram os times de Minas que disputavam o Campeonato Brasileiro. Para motivar a inscrição dos grandes, a Federação concedeu ao vencedor um ponto de bônus na fase final do Campeonato Mineiro.

A partir de 1979, a Federação resolveu incluir a disputa da Taça nas fases do Campeonato Mineiro.

Na edição de 1979 e 1982 a Taça foi colocada em disputa na 1ª fase do estadual. Entre 1984 e 1986 foi válida pelo 1º turno, em 1983 pelo 2º turno e em 1981 no torneio da morte que iria apontar as duas equipes rebaixadas para a divisão de acesso

Em 1974 e 1978 não foi disputada por falta de espaço no calendário.

Um fato interessante ocorreu em 1986, quando o Atlético conquistou o 1º turno do Campeonato Mineiro. A diretoria do alvinegro cobrou da diretoria cruzeirense o troféu e tomou conhecimento que a Federação ainda não havia feito a entrega da taça aos cruzeirenses correspondente ao ano de 1985. Como o primeiro troféu que estava sendo disputado desde 1973 ficou em definitivo com o Cruzeiro em 1984, a entidade deveria providenciar a confecção de uma nova taça, mas ainda não havia feito. A partir desse episódio a taça deixou de ser disputada.

A partir de 1999 a Taça Minas Gerais reapareceu e, desta vez, sem as participações de Cruzeiro e Atlético. Em 1999 e 2000 foi válida pela 1ª fase do Campeonato Mineiro que contou apenas com a participação dos clubes do interior. A partir de 2003 passou a ser colocada num torneio próprio no segundo semestre de cada ano para indicar um dos clubes mineiros para a disputa da Copa do Brasil.

Time e comissão técnica do Uberaba pousam pra foto no Uberabão antes
da decisão da Taça Minas Gerais de 2009 contra o Villa Nova.
O colorado busca o bicampeonato domingo contra o Uberlândia
no tradicional clássico do triângulo mineiro
OS CAMPEÕES (e os vice em parêntesis) DA TAÇA MINAS GERAIS
1973 – Cruzeiro (Atlético)
1975 – Atlético (Cruzeiro)
1976 – Atlético (Cruzeiro)
1977 – Villa Nova (América)
1979 - Atlético (Cruzeiro)
1980 - Uberaba (América)
1981 – Democrata-GV (Uberlândia)
1982 – Cruzeiro (Atlético)
1983 – Cruzeiro (Atlético)
1984 – Cruzeiro (América)
*Cruzeiro ficou com a posse definitiva do troféu
1985 – Cruzeiro (Atlético)
1986 – Atlético (Uberlândia)

TAÇA MINAS GERAIS (2ª versão)
1999 – URT (Democrata-GV)
2000 – URT (Ipatinga)
2003 – Uberlândia (Araxá)
2004 – Ipatinga (Democrata-GV)
2005 – América (Caldense)
2006 – Villa Nova (Uberaba)
2007 – Ituiutaba (Tupi)
2008 – Tupi (América)
2009 – Uberaba (Villa Nova)
*1974, 1978, 1987 a 1998, 2001 e 2002 – não foi disputada


Henrique Ribeiro
twitter: @henriqueribe

sábado, 20 de novembro de 2010

Fabrício proporcionou um fato inédito na história do Clube

Por causa da escalação de mais um árbitro
que não pertencia aos quadros da FIFA
em partidas do Cruzeiro pelo Brasileiro,
o volante Fabrício revelava sua
indignação com a escolha de Sandro Meira
Ricci na véspera da partida contra o
Corinthians. Após o desfecho do circo
armado pelo trio de arbitragem, tomou a
decisão individual de abandonar a partida
após o pênalti marcado aos 88 minutos

O abandono de campo do volante Fabrício, após a marcação do pênalti roubado a favor do Corinthians, é inédito na história do clube.

O volante, ontem a tarde, em entrevista coletiva na Toca, após seis dias em silêncio, confirmou o abandono e justificou: 

"Achei melhor sair para não prejudicar mais o time, de repente ser expulso e fazer alguma coisa e ficar fora o resto do campeonato. Do jeito que a coisa estava andando, a gente não ia ganhar nunca. Eu tomei a decisão, para mim acertada, pelas circunstâncias. Acho que foi bem tomada e fui eu que tomei, não foram os caras (comissão técnica) não”.

O abandono de campo recebeu a aprovação de toda a torcida cruzeirense. No desembarque da delegação cruzeirense em Belo Horizonte, Fabrício foi ovacionado pelos torcedores no saguão do aeroporto. A foto do jogador abandonando o campo foi transformado em avatar no perfil de usuários de sites de relacionamento como o orkut e o facebook

Este tipo de expediente foi muito utilizado nos primórdios do nosso futebol, mas era uma decisão conjunta. Por não concordar com a marcação de um gol, de um pênalti, da expulsão de um jogador, todo o time abandonava o campo impedindo a continuação dos minutos restantes da partida.

De todos os clubes tradicionais do futebol mineiro, o Cruzeiro é o único que nunca se utilizou do “abandono de campo” como forma de protesto. Mesmo que os jogadores se sentissem prejudicados pelas falhas ou má intenção da arbitragem, jamais suspenderam um espetáculo por decisão própria.

O abandono de campo era impune até a uniformização das leis esportivas no Brasil que ocorreram a partir da década de 1940. O expediente, que era imoral e desrespeitoso ao público nos estádios, passou a ser passível de punição ao clube que o praticasse e assim foi praticamente extinto.

O Cruzeiro ainda preserva na sua história o fato de nunca ter abandonado uma partida, mesmo tendo agora o caso isolado de um jogador que se utilizou por conta própria dessa forma de protesto

Segue abaixo os 7 jogos do Cruzeiro que foram suspensos por causa de abandono de campo dos adversários e seus motivos:

12/05/1929 – Cruzeiro 3 x 0 Sete – o Sete abandonou o campo, após a contusão de seu goleiro, quando ainda faltavam 20 minutos. O time não quis prosseguir o jogo sem o seu melhor jogador

08/11/1929 – Cruzeiro 3 x 1 América – os jogadores do América abandonaram o campo, quando ainda faltavam 2 minutos. Essa pesquisa não encontrou o motivo do protesto.

01/03/1931 – Cruzeiro 4 x 3 Atlético – o presidente do Atlético que acumulava a função de presidente da Federação Mineira invadiu o campo, após o quarto gol do Cruzeiro, e obrigou o árbitro a anular o lance. Diante da recusa, ordenou a retirada do seu time de campo, quando ainda faltavam 10 minutos. O temperamento do presidente alvinegro, meses depois, provocaria a cisão do futebol da capital em duas federações distintas

18/11/1932 – Cruzeiro 1 x 2 Sete – por causa de uma briga generalizada entre os jogadores, o Sete abandonou o campo quando ainda faltavam 5 minutos

08/04/1934 – Cruzeiro 2 x 2 América o goleiro Clóvis, do América, após fazer uma defesa e suspender a bola com as mãos, foi desarmado pelo meiocampo Zezé, do Cruzeiro, que lhe tomou a bola e passou para Bengala marcar o gol de empate. Os jogadores do América protestaram e, diante da confirmação do gol pelo árbitro, abandonaram o campo, quando ainda restavam 7 minutos

21/03/1937 – Cruzeiro 2 x 2 Villa Nova – o Villa Nova abandonou o campo por não concordar com o gol de empate do Cruzeiro, quando ainda faltavam 6 minutos

28/05/1944 – Villa Nova 3 x 3 CruzeiroO gol de empate do Cruzeiro, marcado pelo ponta esquerda Alcides, foi feito numa cobrança direta de escanteio (olímpico). O atacante cruzeirense Selado chegou a tocar na bola, quando já havia transposto a linha. Os jogadores do Villa Nova, contrariando as regras, alegaram impedimento no lance, quando esta infração não existe durante a cobrança de um escanteio. O Villa abandonou o campo quando ainda faltavam 5 minutos. A Federação puniu o time de Nova Lima com a perda dos pontos.

Henrique Ribeiro
twiter: @henriqueribe

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mala Branca existe sim e até Telê Santana já recebeu!

O treinador Telê Santana que fez
história na Seleção Brasileira
recebeu, junto com o plantel do
Atlético, a "mala branca" da
diretoria do América para
derrotarem o Cruzeiro no clássico
da última rodada do Estadual de
1971. O resultado deu o título
estadual ao América.

Após o empate suado do ex-líder Fluminense contra o ameaçado de rebaixamento, Goiás, no domingo passado, retornou a polêmica do uso da “mala branca”.

Teriam Corinthians e Cruzeiro, interessados diretos no resultado do jogo, oferecido uma premiação extra para os jogadores goianos se empenharem ao máximo para tirar pontos e a liderança do Fluminense?

A prática do estímulo extra é antiga em nosso futebol, mas ainda é tratada como um tabu. É a atrasada cultura brasileira que insiste em aliar a imagem e o uso do dinheiro à imoralidade.

A “mala branca” é quase comparada a um escândalo de corrupção mesmo não sendo, pois sequer é ilegal. E é tratada com tanta delicadeza que teve até o seu rótulo alterado, pois antes era chamada de “mala preta”

O uso da mala branca já foi admitido e comprovado no Campeonato Mineiro de 1971. Na penúltima rodada daquele Estadual, que seguia o sistema de pontos corridos com turno e returno, como é o atual Campeonato Brasileiro, o América era líder com um ponto a frente do Cruzeiro. As duas equipes disputavam a liderança, rodada a rodada,
desde o início do certame. O Atlético não fazia boa campanha e já estava fora da disputa sem chances de chegar ao titulo.

O América recebeu o Fluminense, de Araguari, num sábado(19 de junho), no Mineirão, enquanto o Cruzeiro enfrentaria o Tupi, de Juiz de Fora, no domingo, também no estádio. O time de Araguari estava ameaçado de rebaixamento e, teoricamente, seria um jogo fácil para o América que, com uma vitória garantiria o título antecipado.

Antes da partida o presidente do Fluminense, de Araguari, revelou que era torcedor do Cruzeiro e que estava pronto para ajudar o seu time do coração naquilo que fosse preciso (1). Ele surpreendeu os jornalistas ao exibir um cheque no valor de doze mil cruzeiros que, segundo ele, foi entregue pelo Cruzeiro, para servir de estímulo aos seus jogadores. Uma autêntica mala branca.

O Fluminense jogou com muita garra e segurou o América arrancando um empate. No domingo(20 de junho), o Cruzeiro goleou o Tupi por 4 a 0 com um show de Tostão e alcançou o América na liderança.

Os resultados transformaram os jogos da última rodada entre América e Uberlândia, no sábado, e Cruzeiro e Atlético, no domingo, numa decisão.

As declarações do presidente do Fluminense provocaram uma revolta junto aos dirigentes do América. Acusaram o Cruzeiro e o Fluminense de prática de corrupção. Ameaçaram denunciar o fato ao Conselho de Futebol e Desporto-CFD.

O Cruzeiro de Piazza (foto) e o América brigaram
rodada a rodada pelo título mineiro em 1971. O
estadual terminou de forma polêmica e decidido
com o estímulo da "mala branca"
No entanto, o mesmo CFD num caso em que foi levado pelo Botafogo, do Rio de Janeiro, no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970, quando os jogadores do Santos receberam uma mala branca do Atlético, que estava diretamente interessado no resultado da partida, inocentou o clube mineiro.

Naquela ocasião, o órgão alegou que não havia lei que impedisse o favorecimento de dinheiro como estímulo e só haveria apuração do fato se ele fosse ao contrário, no caso de suborno (2).

Diante desta situação, o ex-vice presidente do América, Hélio Brasil de Miranda, iniciou um movimento, durante a semana, junto a torcedores e sócios do clube, para arrecadar 50 mil cruzeiros (3).

O dinheiro iria servir para pagar aos jogadores do Atlético por uma vitória sobre o Cruzeiro. Um prêmio em dinheiro, em especial, seria dado ao atacante Dario, por cada gol que marcasse.

Os jogadores e a diretoria do Atlético foram procurados pela imprensa. A diretoria do clube dizia não ter conhecimento de que seus jogadores haviam sido procurados pela diretoria do América e que o time entraria em campo para vencer o seu maior rival sem a necessidade de um estímulo extra.

A direção alvinegra ainda provocou o América dizendo que quem dá dinheiro para estimular uma vitória, também pode cometer a prática de suborno (4). O atacante Dario manteve a sua peculiar espirituosidade dizendo que não era milionário e que se recebesse dinheiro por cada gol que marcasse colocaria no bolso sem o menor constrangimento (5).

No sábado(26 de junho), o América fez o seu papel e venceu o Uberlândia por 3 a 2. Bastava torcer para que a mala branca desse resultado no clássico de domingo. Uma vitória ou um simples empate daria o primeiro título ao clube na era Mineirão.

O clássico de 27 de junho, como não poderia deixar de ser, foi muito disputado e polêmico. O Atlético venceu por 1 a 0 e o Cruzeiro saiu reclamando a anulação de um gol de Tostão, que poderia ter mudado a história do jogo. O Atlético venceu, mas quem comemorou foi a torcida americana.

E a segunda-feira(28 de junho), foi dia de um movimento atípico numa agência do Banco Mineiro do Oeste, na rua da Bahia, no centro da capital. Os jornalistas presenciaram o comparecimento de todos os jogadores do Atlético que receberam cada um a importância de Mil e quinhentos cruzeiros prometidos pelo América.

Foram depositados 30 mil cruzeiros e o dinheiro foi dividido pelo pessoal da agência do banco aos titulares e reservas do time, mais o técnico Telê Santana (6).

A presença dos atletas atleticanos a agência bancária só chegou ao conhecimento da diretoria alvinegra, através da imprensa, que declarou que nada poderia fazer para impedir que um outro clube oferecesse dinheiro pela vitória do time.

Tentando se esquivar, a diretoria atleticana ainda provocou o Fluminense, de Araguari, dizendo que só desta maneira é que aquele clube se empenharia em campo para obter um bom resultado (7).

Apesar da troca de farpas, entre América, Atlético e Fluminense, de Araguari, o clássico de 27 de junho de 1971 evidenciou ao futebol mineiro de que a prática da mala branca não é um mito como muitos pretendem. Ela existe e é uma das facetas deste esporte que, dentre estas e muitas outras coisas, o torna tão fascinante.

Henrique Ribeiro
twitter: @henriqueribe

(1) O América...vai a CFD fazer a denúncia de que há corrupção no futebol mineiro, tirando por base as declarações e atos do presidente do Fluminense, de Araguari, antes e depois da partida de sábado no Mineirão. (...) Afirmou que era torcedor do Cruzeiro e que o Fluminense estava pronto para ajudá-lo naquilo que fosse preciso. (...) O que agravou mais a situação, na opinião do diretor do América (Roberto Calvo), foi a exibição de um cheque de Cr$ 12 mil pelo Cruzeiro para servir de estímulo aos jogadores. (América denuncia corrupção – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(2) O América faz denúncia de corrupção diante de que dificilmente poderia ter sucesso. Todos sabem que o Botafogo tentou a mesma coisa contra o Atlético, que ofereceu 50 mil ao Santos por uma vitória na parte final do Robertão. O CFD respondeu que não há lei que impeça o favorecimento de dinheiro como estímulo e só haveria apuração do fato se ele fosse ao contrário, no caso de suborno. (América denuncia corrupção – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(3) “Se o dinheiro está ajudando a ganhar jogos em Minas, o América não vai deixar que só os seus adversários o usem abertamente. Vai usá-lo também”. Pensando assim, alguns conselheiros, ex-dirigentes e também membros da diretoria resolveram fazer lista tentando conseguir Cr$ 40 mil, para dar de bicho aos jogadores do Atlético, no domingo para que eles derrotem o Cruzeiro. (...)O movimento é liderado por Hélio Brasil de Miranda, que foi vice-presidente na administração de Valter Mello, e esteve reunido ontem na Alameda com várias pessoas para fazer uma lista de nomes. Cada torcedor rico do América será chamado a colaborar. (...)O América acredita que na base dos CR$ 3.000,00 por pessoa, o Atlético vai dar tudo domingo contra o Cruzeiro e deve ganhar fácil (América paga bicho ao Atlético – jornal Estado de Minas – 24/06/1971)

(4) O Atlético vai enfrentar o Cruzeiro com disposição de vencê-lo sem precisar de estímulos extras.(...) Para a diretoria do Atlético, o time não vai fugir da responsabilidade para com a sua torcida e com os outros clubes. A notícia de que o América vai oferecer Cr$ 50 mil de bicho aos jogadores pela vitória e um prêmio especial para Dario, por gol marcado, foi recebida normalmente, mas o Atlético não toma conhecimento dela e entende que é um jogo perigoso, pois quem tenta estimular a vitória pode querer comprar a derrota também. (Vitória vale título para o Atlético – jornal Estado de Minas – 22/06/1971)

(5) “Não sou milionário e se me presentearem dinheiro para marcar gols, eu aceito. E não me envergonho disto. Sou capaz até de receber um cheque vivo num canal de televisão...” (Se quiserem dar bicho Dario aceita – jornal Estado de Minas – 27/06/1971)

(6) Todos os jogadores do Atlético passaram ontem pelo Banco Mineiro do Oeste, agência Bahia, e receberem Cr$ 1.500.000,00 prometidos pelo ex-diretor Hélio Brasil de Miranda, do América, que juntamente com outros americanos, pagou Cr$ 30.000,00 pela vitória sobre o Cruzeiro...O dinheiro foi depositado e dividido pelo pessoal do banco entre titulares, reservas e técnico (América pagou o Atlético – jornal Estado de Minas – 29/06/1971)

(7) O Atlético...deixou claro que não tomou conhecimento do presente dado pelos americanos aos jogadores....Para a diretoria, o Atlético é muito grande e não precisa de motivação extra para vencer. Não agimos como o Fluminense, de Araguari, que ofendeu a todos recebendo dinheiro diretamente e dando a entender que se não houvesse uma compensação não conseguiria um bom resultado diante do América. Se quisesse premiar nossos jogadores nada poderemos fazer para impedir, mas não aprovamos a medida. (América pagou o Atlético – jornal Estado de Minas – 29/06/1971)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Campeonato Brasileiro dos anos 1960 e os mitos pregados por seus detratores

Time do Cruzeiro com a taça de campeão brasileiro de 1966 desfila em carro do corpo de bombeiros pelas ruas de Belo Horizonte e é recebido por uma multidão em todo o trajeto entre o aeroporto da pampulha e a sede do Barro Preto



A cobrança sobre a CBF que fazem os clubes campeões brasileiros anteriores ao ano de 1971 nada mais são do que por um freio e um cala boca aos detratores dos campeonatos brasileiros daquele período.

Durante décadas vimos um grupo de dirigentes e jornalistas criarem e recriarem argumentos, justificativas e comparações pífias com o objetivo de desvalorizar a competição.

A primeira destas justificativas surgiu na década de 1970, quando começaram a dizer e escrever em publicações esportivas que a Taça Brasil não foi um campeonato brasileiro, mas um torneio para indicar o clube brasileiro na Taça Libertadores e que a competição havia sido criada apenas para essa finalidade.

A história desmente isso, pois o campeonato em disputa da Taça Brasil foi criada num congresso de futebol, em setembro de 1955, presidido pelo presidente da CBD, Sílvio Pacheco e com a participação dos presidentes da Federações, com o objetivo de apontar o "campeão brasileiro" da temporada.

Em dezembro de 1954, o departamento técnico da CBD, quando instituiu o troféu (Taça Brasil) para ser disputado no Campeonato Brasileiro, também instituiu o título ao seu vencedor, o de "Campeão Brasileiro".

Outro argumento utilizado para defender a edição de 1971, como a primeira da história da competição, foi ainda mais contraditória. Diziam na ocasião que "foi quando começou a ser chamada de campeonato brasileiro", ou seja, esta própria justificativa admite que já havia o campeonato brasileiro, mas que não levava este nome e, sim, o de taça brasil.

Nomenclaturas não definem se uma competição leva ou não um "título máximo". E em 1971, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa passou a se chamar Campeonato Nacional de Clubes e não Campeonato Brasileiro. A atual denominação passou a vigorar em 1989. Entre 1975 e 1988 a pricipal competição nacional era a Copa Brasil.

Os detratores da Taça Brasil passaram a formar um outro côro a partir da década de 1980. Justificavam que era disputada num sistema de Copas e que não poderia ser um campeonato.

O conceito de Campeonato nada tem nada a ver com sistema de disputa. Campeonato é qualquer competição disputada por dois ou mais clubes cujo vencedor recebe o título de "campeão".

E Copas e Taças são nada mais que troféus. Um prêmio para simbolizar a conquista. Curiosamente, aqui no Brasil, jamais deveríamos chamar um troféu de Copa, pois o idioma português é o único que não necessita aportuguezar a palavra inglesa CUP, pois já temos a palavra TAÇA, com o mesmo significado.

E se fosse por causa dessa nomenclatura, os campeões brasileiros entre 1975 e 1988, não poderiam ser considerados, pois  a principal competição nacional chamava-se Copa Brasil.

Matéria da Folha de São Paulo de 1965 sobre a final do Campeonato Brasileiro entre Santos e Vasco, onde os santistas conquistaram o inédito pentacampeonato brasileiro consecutivo

Outro dado interessante a respeito da Copa Brasil que passou a ser disputada em 1975 foi o critério de participação que passou a ser o mesmo da Taça Brasil, ou seja, os clubes participantes eram apontados de acordo com suas respectivas classificações nos campeonatos estaduais. A única diferença era que Rio e São Paulo classificavam mais participantes de seus estaduais, enquanto outros estados como Minas Gerais, indicavam apenas o campeão e o vice.

É importante observar também que o tal campeonato que se iniciou em 1971 tinha como critério de participação o convite da CBD, pois era o Torneio Roberto Gomes Pedrosa transformado. E assim vigorou até 1974, quando foi extinto. Não possuía rebaixamento, nem acesso e não era dividido por fases não sendo definido pelo numero máximo de pontos conquistados na tabela de classificação

A perseguição a Taça Brasil não cessou na decada de 1990. Por causa do sistema do mata-mata adotado na Taça Brasil entre 1959 e 1968 e, por causa, do surgimento da Copa do Brasil, em 1989, os detratores da Taça Brasil passaram a comparar as duas competições.

O que importa não é o sistema e a nomenclatura, mas o título que é conferido ao vencedor da competição. O vencedor da Taça Brasil recebia o título máximo de "campeão brasileiro" e o da Copa do Brasil apenas o de "campeão" e isto está no regulamento.

Ou será que a Seleção Brasileira não pode ter o título de campeã mundial, porque não ganhou uma competição chamada Campeonato Mundial?

Por último haviam aqueles que justificavam a onda dizendo que a Taça Brasil não era reconhecida pela CBF.

Ora, ora, se foi o próprio presidente da entidade em 1955, o sr. Silvio Pacheco, que presidiu o congresso organizado para criar a competição e se foi o presidente do conselho técnico da CBF, o sr. Castelo Branco, que em dezembro de 1954 instituiu o troféu (Taça Brasil) e o título máximo (campeão brasileiro) ao vencedor do campeonato, que tipo de reconhecimento eles estão falando? Conversa fiada!

O que causa espécie são os defensores desse argumento conferirem o título de 1987 ao Flamengo. Este título sim é que nunca foi reconhecido pela CBF!

Concluindo, o torcedor deve entender que CAMPEONATO BRASILEIRO é simplesmente a competição que confere ao seu vencedor o título máximo de "campeão brasileiro", independente da nomenclatura, do sistema de disputa, do numero de jogos e de clubes participantes.

Que a CBF se pronuncie e admita que se omitiu.

Que interferências políticas não estejam acima da realidade do nosso futebol.

E que os perseguidores da Taça Brasil se retratem!

Matéria do jornal Estado de Minas de 1966 publica parte da tese apresentada no Congresso Brasileiro que criou o Campeonato Brasileiro em 1955 justificando que a competição serviria para apontar o "campeão brasileiro de clubes"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A unificação dos títulos de Campeão Brasileiro


Tostão beija a tão cobiçada taça de campeão brasileiro de 1966. O Cruzeiro se juntava ao Bahia, como um dos campeões brasileiros fora do eixo Rio-São Paulo

Nas últimas semanas a "unificação dos títulos de campeão brasileiro" voltou a fazer parte das manchetes esportivas.

Os clubes campeões brasileiros de 1959 a 1970 cobram da direção da CBF um pronunciamento para acabar de vez com o mito de que o "Campeonato Brasileiro começou a ser disputado em 1971", quando todos sabem que a competição começou em 1959.

E por que isso acontece? Qual a origem dessa rejeição aos títulos de campeão brasileiro da década de 1960?

Tudo começou em 1938, quando o dirigente da Confederação Brasileira do Desporto-CBD (entidade que controlava todos os esportes no Brasil), o sr. Castelo Branco, após observar o sucesso técnico-financeiro de dois torneios interestaduais, o Rio-São Paulo de 1933 e o Torneio dos Campeões de 1937, propôs a criação de um Campeonato Brasileiro de Clubes.

Todos os esportes brasileiros tinham um campeonato nacional de seleções e de clubes em disputa de sua Taça Brasil, só faltava o futebol, que tinha apenas o Brasileiro de Seleções Estaduais, que era disputado aos trancos e barrancos desde 1922.

Por ser dirigente da CBD Castelo queria que o Campeonato fosse disputado pelos campeões de cada estado em disputa da Taça Brasil. Afinal, só poderia ser campeonato brasileiro se fosse disputado por todo o país! E isso contrariou a vontade dos clubes do eixo Rio-São Paulo que queriam um certame disputado apenas pelos estados mais desenvolvidos.

Castelo durante muitos anos insistiu na idéia do Campeonato Brasileiro, mas continuou ignorado.

Quando os clubes europeus começaram a discutir a criação de um campeonato continental em 1954, propuseram a Confederação Sulamericana a criação do seu campeonato para que, ao final de cada competição, fosse organizado um desafio entre o campeão de cada continente.

A Europa já havia definido que o seu campeonato continental seria disputado pelos campeões de cada país. Seguindo a tendência, os presidentes das confederações de cada país da America do Sul pretendiam o mesmo, o que deixou os dirigentes brasileiros embaraçados. Todo os países da América do Sul tinham o seu campeonato nacional, mas o Brasil ainda não.

O fato acordou os dirigentes brasileiros. Castelo Branco em dezembro de 1954 reuniu o departamento técnico da CBD e decidiu pela instituição da Taça Brasil e o título de "campeão brasileiro de clubes" ao detentor do troféu e deixou a cargo dos clubes e das federações as discussões a respeito de datas, criterios de participação e sistema de disputa do Campeonato Brasileiro.

Em janeiro de 1955 os dirigentes cariocas se reuniram na sede do Botafogo e trataram de forjar o regulamento, sistema de disputa e o critério de participação do Campeonato Brasileiro que, na visão deles, deveria ser disputado por 6 times de Rio e São Paulo, mais 2 clubes de Minas Gerais e Rio Grande do Sul e um representante da Bahia, Paraná e Pernambuco totalizando 19 clubes de apenas 7 estados.

A Federação Mineira de Futebol tomou a iniciativa de organizar em setembro de 1955 o Congresso Brasileiro de Futebol para tratar da criação do Campeonato Brasileiro. O congresso foi realizado em Belo Horizonte com a participação dos presidentes das federações estaduais e presidido pelo presidente da CBD, Silvio Pacheco.

Ficou firmado que o Campeonato Brasileiro teria início em 1959, porque o calendário trienal do futebol já estava aprovado e não poderia sofrer alterações por causa da Copa do Mundo de 1958.

Prevaleceu a sugestão do dirigente Castelo Branco com o campeonato brasileiro sendo disputado pelos campeões de cada estado.

Com a extinção da Taça Brasil em 1969, o título de "campeão brasileiro" foi transferido para outra competição, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa que era o segundo torneio em importância no país e por isso concedia ao seu vencedor a "Taça de Prata" desde 1968, quando a CBD encampou a competição (Veja abaixo o quadro dos campeões).

Em 1971 o Torneio Roberto Gomes Pedrosa teve a nomenclatura alterada para "Campeonato Nacional de Clubes", mas seus campeões continuaram recebendo a Taça de Prata até 1974.

A tentativa dos inimigos da Taça Brasil não cessaram e parte da imprensa esportiva foi envolvida nesse processo de rejeição aos campeões brasileiros da decada de 1960. Mas isso é assunto para o meu próximo post aqui no blog.

CAMPEÕES BRASILEIROS (ANTES DE 1971)
1959 - BAHIA
1960 - PALMEIRAS
1961 - SANTOS
1962 - SANTOS
1963 - SANTOS
1964 - SANTOS
1965 - SANTOS
1966 - CRUZEIRO
1967 - PALMEIRAS
1968 - não houve campeão - o título brasileiro deveria ser disputado num torneio envolvendo os campeões da Taça Brasil, Robertão, Centro-Sul e Norte-Nordeste. A Taça Brasil de 1968 só terminou no final do ano de 1969 e a disputa pelo título brasileiro de 1968 perdeu o interesse.
1969 - não houve campeão
1970 - FLUMINENSE - campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa que passou a conceder o título de campeão brasileiro ao seu vencedor.

Henrique Ribeiro
Twitter - @henriqueribe