terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A história do primeiro vicecampeonato brasileiro do Cruzeiro em 1969

O Cruzeiro ficou sem Tostão a partir da quinta rodada, mas Dirceu Lopes comandou o time no Brasileiro de 1969


Com o reconhecimento dos Torneios Roberto Gomes Pedrosa como Campeonato Brasileiro pela CBF, o primeiro vicecampeonato nacional do Cruzeiro passou a ser o de 1969. Anteriormente, o primeiro vice havia sido o de 1974 na polêmica decisão contra o Vasco. Com o reconhecimento o Cruzeiro passa a contar com 5 vicecampenatos brasileiros: 1969, 1974, 1975, 1998 e 2010. E foi um dos vicecampeonatos mais polêmicos da história, pois foi decidido no critério de desempate, no saldo de gols.

O Campeonato Brasileiro de 1969

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1969, que também era chamado de Taça de Prata (troféu que havia sido instituído em 1968, quando a CBD passou a organizar o torneio), manteve o número de 17 participantes do ano anterior com São Paulo e Rio de Janeiro representados por 5 equipes cada, Minas Gerais e Rio Grande do Sul por dois times, Paraná, Bahia e Pernambuco com uma equipe cada. Os representantes da Bahia e de Pernambuco haviam sido incluídos em 1968, pela CBD, com o certame passando a ser disputado por 7 estados.

O sistema de disputa foi mantido. Na primeira fase todos se enfrentaram em turno único. Os dois primeiros colocados de cada chave prosseguiram para a segunda fase e se enfrentaram em turno único. O time que somou o maior número de pontos na segunda fase foi o campeão.

O Cruzeiro participou do Grupo A que teve 8 equipes (Corinthians, Internacional, América-RJ, Santos, Santa Cruz, Portuguesa e Flamengo). A chave B teve 9 equipes (Palmeiras, Grêmio, Botafogo, Atlético-MG, Fluminense, Bahia, Coritiba, São Paulo e Vasco).

A formação do time do Cruzeiro

O clube promoveu o retorno do treinador Gérson Santos, que havia comandado o time do Uberlândia no estadual de 1968. Gérson foi ex-zagueiro do Cruzeiro, nos anos 1940 e 1950 e esta era a sua quarta passagem no comando técnico da equipe. A primeira havia sido em 1957 quando comandou o time interinamente em duas partidas. Em 1959 foi contratado e levou o time a conquista do Campeonato Mineiro e a classificação para o Campeonato Brasileiro de 1960, o primeiro da história do Clube. Sua última passagem havia sido em 1962, quando ficou apenas dois meses no cargo.

Contratações

O destaque do ano foi a contratação do zagueirão Fontana, da Seleção Brasileira e do Vasco, que custou 200 mil cruzeiros aos cofres do clube. Ele veio para preencher a lacuna deixada pelo zagueirão William, que abandonou o clube em 1967 antes do encerramento do contrato.

O clube também trouxe o zagueiro Mário Tito, do Bangu-RJ e acertou o retorno do zagueiro Moraes, que estava no Democrata de Sete Lagoas. Ainda contratou o lateral esquerdo Vanderlei, uma das revelações do Campeonato Mineiro, quando jogou no Nacional de Uberaba, em 1967, e que estava no América. Para a reserva de Raul, vieram dois jovens goleiros: Crésio, do Usipa de Ipatinga e Nêgo, do Crac, de Catalão-GO. O meiocampo Zé Carlos Mérola, veio por empréstimo, junto ao América.

O goleirão Raul atuou em todas as partidas da campanha do Brasileiro de 1969

O Plantel Titular

O zagueiro Mario Tito começou como titular, mas perdeu a posição para Darci na metade do Campeonato, o mesmo aconteceu com a lateral direita que teve Raul Fernandes na posição, até a reta final, quando foi trocado por Lauro. O atacante do júnior, Palhinha, foi o centro-avante titular até a sexta rodada, mas Evaldo reconquistou a posição. Com a contusão de Tostão, na quinta rodada, Zé Carlos Mérola ganhou a posição de meia direita, mas acabou substituído por Gilberto na reta final.

Assim o time principal teve a seguinte formação: Raul, Raul Fernandes (Lauro), Darci (Mário Tito), Fontana, Neco, Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Tostão (Zé Carlos Mérola) (Gilberto), Evaldo (Palhinha), Rodrigues (Hilton Oliveira).

Outros jogadores que participaram da campanha foram Pedro Paulo, Moraes, Vanderlei, Natal, Wilson Almeida, Ricardo e Marco Antônio.

A boa fase do time

O Cruzeiro teve um início de ano avassalador. Conquistou o estadual, pela segunda vez consecutiva, de forma invicta, consagrando-se como pentacampeão mineiro. O time estabeleceu uma sequência de 8 meses (38 jogos) sem derrotas, que só foi interrompida na derrota para o Botafogo pela Taça Brasil

Sem ponta direita

Durante quase toda a campanha o time jogou sem um ponta direita e com quatro jogadores no meio de campo. O jogador especialista na posição, Natal, atuou apenas na partida contra o Palmeiras, na rodada rodada da fase final. Outro jogador que atuava na posição era Wilson Almeida que jogou apenas no empate contra o Grêmio, na primeira fase, quando entrou no decorrer da partida substituindo o ponta de lança Gilberto.

O drama de Tostão começou na campanha do Cruzeiro no Brasileiro de 1969


A Campanha

Desde o início do Campeonato o time disputou rodada a rodada uma das duas vagas do grupo para a fase final contra Corinthians e Internacional, que havia sido vice em 1967 e 1968.

Na quinta rodada, o time sofreu uma derrota por 2 a 0 para o Corinthians, que ficou marcada com a grave contusão sofrida pelo ídolo Tostão. O craque teve a retina do olho esquerdo deslocada, após ter sido atingido por uma bolada, que ameaçou a carreira do jogador da Seleção Brasileira. O drama de Tostão deixou o país apreensivo. O craque retornou aos gramados apenas no ano seguinte, após ter sido submetido a uma cirurgia delicada nos Estados Unidos.

O drama de Tostão não abateu a equipe e a grande prova foi a vitória sobre o Atlético por 2 a 1, na rodada seguinte, mas a maior vitória foi sobre o Santos na oitava rodada. O jogo disputado no Morumbi começou com os santistas abrindo uma vantagem de 2 a 0, com gols de Edu e Douglas. Assim como havia acontecido na decisão do Campeonato Brasileiro de 1966, o Cruzeiro arrancou uma virada sensacional. O empate veio ainda no primeiro tempo, com Zé Carlos e Dirceu Lopes. Faltando cinco minutos para o fim do jogo, Dirceu Lopes marcou o gol da vitória.

O jogo que definiu a classificação para a fase final foi contra o Internacional, no Mineirão. Os gaúchos haviam perdido a liderança para o Corinthians, mas permaneciam vice-líderes com dois pontos de vantagem sobre o Cruzeiro. A vitória veio no finalzinho com um gol de pênalti de Darci Menezes, que deixou o Cruzeiro na vice-liderança a tres rodadas do final da primeira fase.

Título perdido no critério de desempate

Corinthians, Cruzeiro, Botafogo e Palmeiras se classificaram para a fase final e o Campeonato só foi definido na última rodada. O Palmeiras, com dois pontos na tabela, venceu o Botafogo, que tinha apenas um ponto ganho, por 3 a 1. O Cruzeiro, com dois pontos, derrotou o líder Corinthians, que estava com três pontos, por 2 a 1, no Mineirão.

Com os resultados o Campeonato terminou empatado com Cruzeiro e Palmeiras com a mesma campanha. Ambos tinham o mesmo número de pontos e de vitórias, mas os paulistas ficaram com o título por causa do saldo de gols na fase final, que foi de um a mais que o Cruzeiro.

Curiosamente, esta foi uma das primeiras injustiças provocadas pelo sistema de disputa. O Corinthians teve a melhor campanha ao longo de todo o Campeonato e somou o maior número de pontos e de vitórias, mas morreu na praia, na última rodada, com a derrota para o Cruzeiro. E o Palmeiras, campeão, terminou o Campeonato com três pontos a menos que o Cruzeiro, que foi o vice.


A ficha do Jogo


CRUZEIRO 2 x 1 CORINTHIANS (SP)
07/12/1969 - Campeonato Brasileiro (Fase Final) - Mineirão (Belo Horizonte, MG)
Público: 56.728 (Ncr$ 257.736,)
Árbitro: Arnaldo Cézar Coelho (RJ)
Auxiliares: Carlos Floriano Vidal (RJ) e José Luiz Barreto (RS)
Gols: Evaldo 1', Rivelino 37', Dirceu Lopes 68'
Cruzeiro: Raul, Lauro, Darci, Fontana, Neco, Piazza, Dirceu Lopes, Palhinha, Evaldo (Hilton Oliveira), Zé Carlos, Rodrigues (Raul Fernandes). T: Gérson Santos
Corinthians: Ado, Miranda, Ditão, Luiz Carlos, Pedro Rodrigues, Tião, Rivelino, Suingue (Tales), Ivair, Benê, Lima. T: Dino Sani
Expulsos: Darci (Cru); Pedro Rodrigues (Cor)

A CAMPANHA DO CRUZEIRO NO CAMPEONATO BRASILEIRO DE 1969


PRIMEIRA FASE
07/09 - 3 x 0 FLUMINENSE (Maracanã)
Tostão 1' e 30', Dirceu Lopes 65'
14/09 - 0 x 1 BOTAFOGO (Mineirão)
Roberto 25’
17/09 - 1 x 0 PALMEIRAS (Parque Antártica)
Tostão 83'
21/09 - 1 x 1 PORTUGUESA (Mineirão)
Tostão 29' (C), Lorico 40' (P)
24/09 - 0 x 2 CORINTHIANS (Pacaembu)
Suingue 30', Lima 90'
28/09 - 2 x 1 ATLÉTICO (Mineirão)
Dirceu Lopes 14' e 85' (C), Oldair 55' (A)
01/10 - 2 x 1 AMÉRICA-RJ (Maracanã)
Evaldo 63', Dirceu Lopes 64' (C), Piazza-contra (A)
05/10 - 3 x 2 SANTOS (Morumbi)
Zé Carlos 38’, Dirceu Lopes 44’ e 85’ (C), Edu 4’, Douglas 29’ (S)
15/10 - 1 x 2 BAHIA (Fonte Nova)
Rodrigues 19' (C), Artur 10', Carlinhos 58' (B)
19/10 - 2 x 2 FLAMENGO (Mineirão)
Zé Carlos 49', Darci 71' (C), Bianchini 23', Nei 32' (F)
26/10 - 2 x 0 SÃO PAULO (Mineirão)
Dirceu Lopes 70', Gilberto 88'
01/11 - 1 x 1 CORITIBA (Couto Pereira)
Evaldo 46' (Cru), Nilson 16' (Cor)
05/11 - 1 x 0 INTERNACIONAL (Mineirão)
Darci Menezes 88'
09/11 - 1 x 0 VASCO (Mineirão)
Evaldo 79'
16/11 - 1 x 1 GRÊMIO (Olímpico)
Dirceu Lopes 82' (C), Paíca 59' (G)
26/11 - 4 x 0 SANTA CRUZ (Mineirão)
Dirceu Lopes 42'e 88', Zé Carlos 81', Palhinha 85'

FASE FINAL
30/11 - 2 x 2 BOTAFOGO (Maracanã)
Evaldo 55’, Zé Carlos 65’ (C), Afonsinho 75’, Rogério 81’ (B)
03/12 - 1 x 1 PALMEIRAS (Mineirão)
Palhinha 55' (C), César 45' (P)
07/12 - 2 x 1 CORINTHIANS (Mineirão)
Evaldo 1', Dirceu Lopes 68' (Cru), Rivelino 37' (Cor)

Henrique Ribeiro
@henriqueribe

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cruzeiro 90 anos colocando a bola no chão e os adversários na roda



A principal razão de ter me tornado cruzeirense foi, sem dúvida, o estilo de jogo que caracteriza os times formados pelo clube: o toque de bola, rápido e rasteiro.

O jogo começa lá atrás, com o lateral ou o zagueiro, passa pelo meio campo e chega até a cara do gol.

Nada de chutões despretensiosos e jogadas feitas ao acaso, como acontece com os times que adotam o estilo da raça.

Passam gerações e o Cruzeiro mantém o estilo, é o seu DNA, está na sua genética.

É um estilo que oferece liberdade ao jogador criativo e técnico produzir lances de rara habilidade como o que fez o meiocampo Kerlon naquele clássico contra o Atlético.

É por causa desse estilo que Joãozinho se sentiu a vontade para criar o drible da pedalada, Eduardo usar e abusar do drible da vaca, Ronaldo Fenômeno agitar a torcida com o drible da letra, sem falar nas tabelinhas e na movimentação rápida e envolvente dos atacantes.

Qualquer craque fica a vontade pra jogar no Cruzeiro. É no clube que ele pode colocar em prática aquilo que inventou numa brincadeira de treino. Sabe que a torcida aprova e exalta o valor técnico, mais do que a força de vontade.

E sempre foi assim. É só o time concluir uma jogada trabalhada, de toques envolventes, que alguém comenta: "esse é o Cruzeiro!"