sábado, 8 de dezembro de 2012

Bicampeonato da Supercopa veio com goleada cruzeirense sobre o Racing


Foto: Guinaldo Nicolaevsky (Hoje em Dia)

Por Henrique Ribeiro

O adversário do Dream Team na decisão da Supercopa de 1992 foi o Racing. O time argentino chegou a final enfrentando menos adversários que o Cruzeiro. Nas oitavas de final, pela chave seis, superou o Independiente, no clássico de Avellaneda, com uma vitória por 2 a 1, em seu estádio e um empate sem gols na casa do rival. Nas quartas de final, o Racing nem precisou jogar para se classificar. Seu adversário seria o Nacional, de Montevidéu, mas os jogadores profissionais do Uruguai estavam em greve e o Racing foi contemplado com a classificação para a semifinal para encarar o Flamengo, que há poucos meses, haviam levantado o título do Campeonato Brasileiro. O Racing surpreendeu e e liminou o rubro-negro com um empate em 3 a 3, no Pacaembu e uma vitória por 1 a 0, no jogo da volta, em Avellaneda.

Assim, mais uma vez, Cruzeiro e Racing faziam uma final da Supercopa. Ambos decidiram a primeira edição da competição dos campeões em 1988. Os argentinos levaram a melhor com uma vitória por 2 a 1, em Avellaneda, no jogo de ida, e deram a volta olímpica, no Mineirão, no jogo da volta, com um empate em 1 a 1. Assim, a decisão de 1992 passou a ter um sabor de vingança.

"O Cruzeiro vai despachar o Racing. Uma vitória aqui e a conquista do título é uma questão de honra para todos", garantia o meia Boiadeiro. Ao contrário de 1988, a segunda partida decisiva seria em Avellaneda. Assim, os jogadores do Cruzeiro já queriam decidir o título logo no primeiro jogo, no Mineirão e firmaram um pacto por uma goleada.

"Sem dúvida que a decisão é aqui, onde teremos que fazer muitos gols", avisava o treinador Jair Pereira. O atacante Roberto Gaúcho endossava as palavras do técnico cruzeirense: "Nós precisamos vencer aqui com uma contagem de três ou quatro gols para jogar com tranquilidade na Argentina". O discurso era repercutido por todos os atletas do grupo estrelado. "Temos que atacar e procurar incansavelmente o gol, porque uma vitória com muitos gols nos deixa em situação mais cômoda para o jogo da volta", planejava o meia Boiadeiro.

Ninguém no plantel duvidava que o mesmo clima hostil que enfrentaram em Buenos Aires, nas quartas de final, contra o River, iria se repetir, em Avellaneda, contra o Racing, na final. "Todos os times argentinos procuram fazer de cada partida uma guerra. Temos que fazer o resultado aqui para jogar mais tranquilo lá", analisava o atacante Edson, que era o único remanescente do plantel cruzeirense de 1988. Édson só não participou das finais contra o Racing, porque rompeu o tendão do pé.

Pelo lado do Racing, o experiente Ruben Páz, era o único jogador do time supercampeão de 1988, que ainda permanecia na "academia celeste". Páz era um velho conhecido da torcida brasileira, pois foi titular da Seleção Uruguaia na década de 1990 e teve uma passagem marcante com a camisa do Internacional. Ele previa um jogo aberto e sem violência, no Mineirão e deu as dicas de como sua equipe iria se comportar na primeira partida da decisão. "Sempre marcando e buscando os contra ataques. Precisamos do título. Desta forma poderemos compensar a torcida pelo sofrimento de ver o time tão mal no Campeonato Argentino", declarou. O Racing dividia a vice-lanterna com o Newell's Old Boys e estavam a frente, somente do Gymnasia e Esgrima. No domingo, antes da decisão, haviam empatado em 1 a 1, com o Newell's.

E Ruben Páz era a principal preocupação do técnico Jair Pereira, que o considerava o maestro do Racing. "Eles atuam em função do Paz. Seus lançamentos buscam as pontas, principalmente o lado esquerdo", declarou. Mas o time também tinha o ponteiro direito, ClaudioGarcia, cujo estilo era comparado ao de Renato Gaucho, além de Borelli, que era da seleção argentina e o goleiro Roa, que era do selecionado olímpico.

O treinador do Racing era Humberto Grondona. Ele era filho do presidente da Associação de Futebol da Argentina-AFA, Julio Grondona. Assim que chegou a Belo Horizonte, avisou que o seu time partiria pra cima do Cruzeiro e que não armou nenhuma marcação especial para parar Renato Gaúcho, no Mineirão. "Não sou favorável a esquemas defensivos. Não há nenhuma razão para jogar fechado. Não temos esse hábito. Vamos partir logo pra cima", avisava. 

Grondona apontava a experiência como a maior virtude do time do Cruzeiro. "Eles atuam de forma cadenciada, tocando a bola e, quando partem para o ataque procuram fazer valer a experiência. Assim, o Cruzeiro foi muito prejudicado pelo árbitro, em Buenos Aires, mas soube garantir a classificação", analisou.

Outra preocupação do time cruzeirense era quanto a sua contusão na panturrilha esquerda, que o fez sair no decorrer das partidas contra o River e o Olimpia. "Tenho que me cuidar durante o jogo para não levar outra pancada no mesmo lugar", declarou. O uso de uma proteção na panturrilha foi descartada pelo jogador. "Aí, eu mostraria para os zagueiros como me tirar da partida", ironizou.

Coincidentemente, Renato se machucou em dois lances que originaram gols de pênalti contra o River e o Olimpia, no Mineirão. "Os caras estão me quebrando lá na frente e o Paulo Roberto é que ganha a fama. Ele cobra o pênalti e se consagra", brincou.
Foto: Conmebol (divulgação)

A diretoria do Cruzeiro previu que a grande final poderia quebrar o próprio recorde nacional de renda da partida contra o Olimpia e, mais uma vez, majorou os preços dos ingressos. A geral passou a custar Cr$ 15, a arquibancada Cr$ 30, a cadeira Cr$ 70 e o setor especial especial Cr$ 100. Nem os preços altos e a chuva forte que caiu sobre Belo Horizonte foi capaz de desanimar a nação cruzeirense que formou longas filas em busca de um bilhete para o jogão.

A partida entre Cruzeiro e River teve dois tempos distintos. No primeiro tempo, os argentinos procuraram enervar os cruzeirenses e retardavam, o quanto podiam, as cobranças de laterais e dos tiros de meta. O ponteiro Roberto Gaúcho não encontrava facilidades com a marcação de Reinoso e o Cruzeiro passou a buscar o lado direito do campo para atacar. Numa das avançadas por aquele setor surgiu o primeiro lance de perigo. O meia Boiadeiro recebeu de Paulo Roberto e chutou rente ao travessão.

Aos 17 minutos, o meia Luiz Fernando quase abriu o placar. Ao enviar um chute a gol, a bola desviou num marcador do Racing e o goleiro Roa executou uma bela defesa. Mas aos 31 minutos, o Cruzeiro conseguiu colocar a bola na rede do gol do Racing. O atacante Betinho desarmou Reinoso na lateral esquerda e na corrida ganhou a linha de fundo e cruzou para a área. A zaga do Racing rebateu para fora da área e a bola caiu no pé esquerdo de Roberto Gaúcho que emendou de primeira. A bola desviou num dos defensores do time argentino e enganou o goleiro Roa.

No segundo tempo, o Cruzeiro encontrou as mesmas dificuldades para superar a marcação do Racing, que abusava das faltas. Numa delas, aos 8 minutos, o zagueiro Cosme Zacantti atingiu com violência o atacante Renato Gaúcho com um pontapé por trás e foi expulso pelo árbitro. Não demorou três minutos para o Cruzeiro aproveitar a vantagem de um jogador a mais em campo. Renato Gaúcho recebeu um passe de Boiadeiro e foi a linha de fundo. O cruzamento na segunda trave foi na medida para Roberto Gaúcho colocar de cabeça para o fundo das redes: Cruzeiro 2 a 0.

Aos 13 minutos, Grondona recompôs a defesa e colocou Abelardo Vallejos na vaga do atacante Alfredo Graciani. Mas o Cruzeiro continuou pressionando e a goleada era questão de tempo. Aos 17 minutos, o zagueiro do Racing evitou o terceiro gol tirando uma bola em cima da linha. Aos 20 minutos, Renato Gaúcho escorou de cabeça um cruzamento de Roberto e Roa fez outra defesa difícil na partida.

De tanto martelar o Cruzeiro chegou ao terceiro gol aos 24 minutos, após Roberto Gaúcho passou por vários marcadores e rolar para Luiz Fernando na entrada da área. O meia ajeitou e chutou rasteiro no canto direito: Cruzeiro 3 a 0.

O gol deixou o Racing ainda mais nervoso em campo e lateral direito Jorge Borelli acabou expulso aos 35 minutos. Num lance individual na intermediária, o meia Boiadeiro fechou a goleada com um chute de fora da área, aos 40 minutos e encerrou a goleada: Cruzeiro 4 a 0.

Se a missão era decidir logo o título no primeiro jogo, o dever foi cumprido. Na Argentina ninguém acreditava numa virada no jogo da volta. "Cruzeiro liquidou o Racing com um resultado quase utópico de se virar", estampou o jornal Clarín.

A renda de Cr$ 2.370.065.000,00 tornou-se o novo recorde nacional. E o incentivo da torcida cruzeirense do primeiro ao último minuto de jogo ganhou elogios dos jornais da Argentina. "Que fortaleza é o Mineirão, onde o Cruzeiro assume o papel de cruel carrasco de cada um de seus visitantes", escreveu o La Nación.

Além dos dois gols marcados, o atacante Roberto Gaúcho foi premiado com a compra do seu passe, após o jogo. O Cruzeiro pagou 2 bilhões (200 mil US$) ao empresário Léo Rabello.

Para a partida em Avellaneda, o treinador Jair Pereira adiantou qual seria a sua estratégia. "Vou armar a equipe de forma defensiva, fechando o meio e evitando o apoio de Paulo Roberto e Nonato, que ficarão presos à marcação", declarou. “Temos que jogar pelo regulamento explorando os contra-ataques. Desta forma poderemos vencer o jogo, pois o Racing terá de sair para o ataque e deixará espaços para que Renato e Roberto Gaúcho contra-ataquem em velocidade”, explicou.

Os jogadores cruzeirenses procuraram, durante a semana, analisar a goleada com cautela e evitar o clima de já ganhou. “Se formos analisar o primeiro jogo o Racing não apresentou um bom futebol e esteve mais preocupado em fazer o tempo passar. Em Buenos Aires terão que sair para o jogo. E o Cruzeiro terá que manter o mesmo ritmo com um pouco mais de cautela na marcação para explorar os contra-ataques”, dizia o lateral-esquerdo Nonato.

Outra preocupação do plantel cruzeirense era quanto o clima de guerra que deveriam criar em Avellaneda. “Logicamente eles vão querer nos intimidar. Sabemos das dificuldades que teremos pela frente. Isto ficou claro na partida contra o River”, previa o atacante Betinho. “Eles vão tentar nos enervar dando cotoveladas. O que não podemos é entrar no jogo deles. Temos que mostrar experiência, superando as catimbas com qualidade”, concluiu o atacante.

Roberto Gaúcho que saiu da partida do Mineirão com um dente bambo, após receber uma cotovelada de Matosas, endossou as palavras de Betinho. “Estamos preparados para jogar futebol. Mas se houver qualquer problema, saberemos o que fazer", avisou. “Estamos preparados para todo tipo de jogo, até para o anti-jogo”, dizia o meia Luiz Fernando.

Já o zagueiro Célio Lúcio não conseguia esconder o otimismo. "Quem quer ser campeão, tem que superar todas as adversidades que surgirem durante a competição. Este é o último jogo e vale o título. Portanto, vale tudo”, dizia. “Conquistar um título na casa do adversário, ainda mais um bicampenato na Argentina é mais difícil, por isso é bem mais gostoso”, completou.

Alheio a tudo isso estava a torcida cruzeirense que acreditava na força do time em Avellaneda. A diretoria do Cruzeiro providenciou a instalação de um telão, na praça da estação, com 50 mil litros de chope para os torcedores, além de outro no ginásio da sede do barro preto. As torcidas organizadas também instalaram telões na Cidade Industrial e no Restaurante Raja Grill, na avenida Raja Gabaglia.

O treinador Grondona, do Racing, ainda tentava afastar o clima de pessimismo que abateu sua equipe. “O Cruzeiro não me surpreendeu. Pensei até que fosse mais time. Pode parecer loucura minha, mas não é assim. Podemos ganhar por quatro gols e decidir o título nos pênaltis”, sonhava.

Mas a coisa não andava boa para o treinador. O meia Ruben Paz iniciou um movimento entre os jogadores para pedir a volta de Perfumo ao comando técnico que irritou o presidente do clube, Juan Distefano. No domingo, antes do jogo, o Racing bateu o lanterna Gimnasia e Esgrima por 4 a 2 e dava mostrar de que havia se reabilitado da goleada. No entanto, contra o Cruzeiro, o time não teria o zagueiro Jorge Borelli e o atacante Cosme Zacantti, suspensos. Gustavo Costas e Carlos Torres foram os substitutos.

Renato Gaúcho e Matosas 

A diretoria do Racing baixou os preços dos ingressos para a partida para motivar seus torcedores. Assim o ingresso mais caro passou a custar US$ 40 e o mais barato US$ 20. A medida deu certo e um público de 30 mil torcedores compareceu ao El Cilindro.

Com toques rápidos e envolventes, o Racing criou a primeira chance de gol antes de completar o primeiro minuto de jogo. Os argentinos voltariam a ameaçar a meta cruzeirense, aos 13 minutos. Numa cobrança de escanteio, o goleiro Paulo César foi empurrado no lance e quando a bola caminhava para o gol, a defesa tirou em cima da linha.

O Cruzeiro suportou os primeiros minutos de pressão do Racing e passou a equilibrar a partida. Aos 16 minutos quase marcou. O meia Boiadeiro recebeu de Renato Gaúcho e chutou forte, mas o goleiro Roa evitou o gol com uma grande defesa. Logo, em seguida, foi a vez do goleiro Paulo César evitar o gol do Racing, ao defender uma cabeçada de Carlos Torres.

As dificuldades do Racing aumentaram, a partir dos 37 minutos, quando Matosas deixou o jogo, após sentir uma lesão muscular. E o Cruzeiro quase abriu o placar aos 43 minutos, quando Renato Gaúcho recebeu cruzamento de Paulo Roberto, matou a bola no peito e chutou para Roa fazer boa defesa.

Aos 16 minutos do segundo tempo, o treinador Humberto Grondona foi para o tudo ou nada e colocou mas um atacante em campo. Ele substituiu Vallejos por Felix Torres. Um minutos depois, Jair Pereira reforçou ainda mais a defesa e colocou em campo o volante Rogério Lage no lugar do atacante Betinho.

Mas a partir daí, o árbitro paraguaio Juan Francisco Escobar começou a entrar em cena. Na primeira disputa de bola de Rogério Lage com o atacante Cláudio Garcia, ele expulsou o volante cruzeirense. Garcia já tinha sido advertido com um cartão amarelo e, muito nervoso, já havia agredido vários jogadores cruzeirense durante a partida. Antes, o árbitro deixou de marcar um pênalti claro cometido por Gustavo Costas em Renato Gaúcho.

Mesmo com um jogador a mais, o Racing encontrava dificuldades para chegar a meta cruzeirense e quando conseguia finalizar, tinha pela frente o goleiro Paulo César sempre bem posicionado. O melhor lance do jogo foi proporcionado pelo meia Boiadeiro. Ele partiu com a bola do meio de campo e se livrou por duas vezes consecutivas de Gustavo Costas, que tentou atingi-lo com um carrinho. Na sequencia ele deu um drible que deixou outro marcador sentado no gramado e colocou por cobertura. O goleiro Roa buscou a bola no ângulo e evitou o gol de placa.

Aos 30 minutos, Juan Escobar expulsou o volante Douglas e o Cruzeiro ficou sem um jogador com características de marcação no meio-campo. Assim, Jair Pereira teve de tirar o atacante Roberto Gaúcho e colocar o zagueiro Arley Alvares para reforçar a marcação.

O Racing chegaria ao gol aos 41 minutos, após Cláudio Garcia receber um lançamento de Guendulain na área e ser deslocado por Célio Lúcio. Ele mesmo cobrou e marcou o gol da vitória. Minutos depois sera expulso, após uma discussão com o zagueiro Luizinho.

No final da partida, alguns torcedores do Racing invadiram o gramado e a volta olímpica dos jogadores do Cruzeiro foi impedida. O troféu da Supercopa só foi entregue nos vestiários. O empresário Jorge Sanches Merenda procurou a diretoria cruzeirense e ofereceu US$ 800 mil (US$ 8 bi) pelo passe do atacante Roberto Gaúcho. Sua intenção era levá-lo para Racing, River Plate ou Boca Junior. O presidente César Masci recusou a oferta.

Somente após o jogo é que a diretoria cruzeirense divulgou o valor do prêmio aos jogadores pelo título. Cada um receberia US$ 6,5 mil sendo US$ 2,5 mil pelo direito de arena. Enquanto o time se aprontava para embarcar para o Brasil, uma multidão de cruzeirenses comemorou o título com um buzinaço ensurdecedor pelas ruas de Belo Horizonte e das cidades do interior do estado. A festa pelo super bicampeonato transcorreu por toda a madrugada.

No desembarque em Belo Horizonte, uma multidão aguardou a chegada do time no aeroporto da Pampulha. A delegação foi recebida na prefeitura e a torcida cruzeirense congestionou toda a extensão da avenida Afonso Pena, que é a principal via de acesso do centro da cidade. Com a taça do bicampeonato da Supecopa, o Dream Team deixava de ser um sonho e tornava-se uma realidade.

CRUZEIRO 4 x 0 RACING (ARG)
18/11/1992 (Qua-21h) - Supercopa (final/1ª) - Mineirão
Público: 78.077 (Cr$ 2.370.065.000,)
Arbitragem: José Joaquim Torres/COL (Armando Perez/COL e John Jairo Toro/COL)
Gols: Roberto Gaúcho 31’, Roberto Gaúcho 57’, Luiz Fernando 69’, Boiadeiro 84’
Cruzeiro: 1-Paulo César; *2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 3-Luizinho e 6-Nonato; 8-Douglas, 10-Boiadeiro e 17-Luiz Fernando; 9-Betinho (14-Cleison/87’), 7-Renato Gaúcho e 11-Roberto Gaúcho. T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 15-Arley Alvares, 21-Rogério Lage, 23-Tôto
Racing: 1-Carlos Roa; 2-Jorge Borelli, 18-Cosme Zaccanti, 4-Jorge Reinoso e 3-Juan Distéfano; 8-Gustavo Matosas (9-Félix Torres/75’), 5-Gustavo Costas e 10-Rubén Paz; 7-Cláudio García, 11-Alfredo Graciani (6-Abelardo Vallejos/58’) e 19-Guillermo Guendulain. T: Humberto Grondona
Suplentes: 12-Jorge Bartero, 14-Luis Ernesto Abramovich, 15-Dario Cabrol
CA: Douglas, Betinho, Renato Gaúcho, Roberto Gaúcho (Cru); Carlos Roa, Jorge Reinoso, Jorge Borelli, Claudio Garcia (Rac)
CV: Cosme Zaccanti/53’, Jorge Borelli/80’ (Rac)

CRUZEIRO 0 x 1 RACING (ARG)
25/11/1992 (Qua-21h) - Supercopa (final/2ª) - El Cilindro (Avellaneda, Argentina)
Público: 29.857 (US$ 180.014,)
Arbitragem: Juan Francisco Escobar/PAR (Carlos Alberto Mariel/PAR e Bonifácio Nuñes/PAR)
Gol: Cláudio Garcia (pênalti) 85’
Cruzeiro: 1-Paulo César, 2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 3-Luizinho e 6-Nonato; 8-Douglas, 10-Boiadeiro e 17-Luiz Fernando; 9-Betinho (21-Rogério Lage/62’), 7-Renato Gaúcho, 11-Roberto Gaúcho (15-Arley Alvarez/78’). T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 16-Édson, 23-Tôto
Racing: 1-Carlos Roa; 4-Jorge Reinoso, 5-Gustavo Costas, 6-Abelardo Vallejos (9-Félix Torres/61’) e 3-Juan Distéfano; 8-Gustavo Matosas (15-Darío Cabrol/37’), 19-Guillermo Guendulain e 10-Rubén Paz; 7-Cláudio Garcia, 16-Carlos Torres e 11-Alfredo Graciani. T: Humberto Grondona
Suplentes: 12-Jorge Bartero, 20-Alejandro Pacheco, 24-Claudio López
CA: Célio Lúcio, Douglas (Cru); Cláudio Garcia, Abelardo Vallejos, Carlos Torres, Juan Distéfano (Rac)
CV: Rogério Lage/66’, Douglas/75’ (Cru); Cláudio Garcia/86’ (Rac)

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Com recorde de renda e de público, Cruzeiro passava pelo Olimpia e avançava as finais


Henrique Ribeiro

Depois de passar pelos campeões da Colômbia e da Argentina, Atlético Nacional e River Plate, respectivamente, o próximo adversário do Cruzeiro foi o Olimpia, do Paraguai. O "Rei de Copas" como era chamado em seu país, havia passado pelo Colo Colo, nas oitavas, e surpreendido o poderoso São Paulo, atual campeão da Libertadores, nas quartas de final.
O treinador Jair Pereira já sabia como jogavam os paraguaios. Ele acompanhou a final da Copa Conmebol, no Mineirão, entre Olimpia e Atlético e viu o atacante Amarilla jogar muito mal. No entanto, viu o mesmo centroavante se redimir nos confrontos contra o São Paulo, pela na Supercopa, quando marcou dois gols, que deu a classificação ao Olimpia.
A primeira partida das semifinais foi marcada para o Defensores del Chaco. "Temos que estar preparados para o clima de guerra. O estádio deles não oferece muita segurança e favorece o jogo de abafa que eles sempre fazem quando jogam lá", alertava o técnico Jair Pereira. "O Olimpia é rápido e perigoso nas jogadas de contra ataque. Vamos marcar em bloco para fechar os espaços deles", avisava. 
O Cruzeiro teria os desfalques de Luizinho e Boiadeiro, que cumpririam a suspensão automática. Assim o zagueiro Arley Álvares, de 20 anos, entraria no time para reeditar a dupla de zaga da equipe júnior com Célio Lúcio. Para a vaga de Boiadeiro, Jair Pereira optou em colocar o volante Rogério Lage, ao invés do meia-atacante Cleison.
O Cruzeiro dominou o primeiro tempo da partida e  não deu espaços para o Olimpia, que teve apenas uma boa chance com Caballero, aos 19 minutos. Renato Gaúcho perdeu duas boas chances. Na primeira, aos quatro minutos, ele cabeceou por cima um cruzamento na medida de Paulo Roberto. A outra ele apanhou um rebote do goleiro Goycochea e acertou a trave direita.

O Cruzeiro abriu o placar aos 32 minutos, com Luiz Fernando que aproveitou um cruzamento de Nonato pelo lado esquerdo. Antes do gol, o goleiro Goycochea havia feito uma grande defesa numa cabeçada de Luiz Fernando, após outro cruzamento de Paulo Roberto.
O Olimpia voltou para o segundo tempo querendo achar o gol de empate na base do abafa. Os paraguaios chegaram várias vezes com perigo em bolas aéreas. Numa delas um rebote sobrou para Samaniego, mas Nonato salvou em cima da linha. O Cruzeiro suportou a pressão e depois passou a encaixar contra-ataques perigosos. Num deles Renato Gaúcho tocou para Roberto Gaúcho que perdeu uma chance incrível na cara do gol. Em outro lance, Édson lançou Roberto Gaúcho livre na esquerda. Mas, ao invés de tocar para Renato na área, ele preferiu concluir, mas acabou chutando por cima. 
"Tentaram nos menosprezar. Acredito que agora eles tem outra opinião a respeito do Cruzeiro", disse o lateral direito Paulo Roberto, assim que desembarcou em Belo Horizonte. Ele se referia aos comentários da imprensa paraguaia que colocava o Cruzeiro, como inferior aos outros adversários enfrentados pelo Olimpia: o São Paulo e o Colo Colo. Consideravam o Cruzeiro defensivo e os outros ofensivos. 
E Paulo Roberto tinha razão. As manchetes dos principais jornais reverenciaram o bom futebol do Cruzeiro. O Jornal Hoy estampou a manchete: "A história se repetiu: Cruzeiro dobra o Olimpia". Referia-se a eliminação que o Cruzeiro impôs aos paraguaios na semifinal da Supercopa de 1991. "Fecharam-se todos os caminhos para o Rei", completava a matéria. 
O descrédito quanto a uma reviravolta na classificação foi grande. O Notícias estampou: "Olimpia vai ao Brasil em busca de um milagre". Já o ABC Color fazia um trocadilho entre o Cruzeiro e a desvalorizada moeda brasileira e a sina dos paraguaios contra o time estrelado na Supercopa: "Diante do Olimpia, o Cruzeiro sempre está em alta". Só não convenceram o treinador Perfumo, que ainda acreditava numa reviravolta. "Foi nossa pior partida do ano, mas assim como eles venceram aqui, nós podemos ganhar lá", avisava.
Na Toca da Raposa, os jogadores comemoravam o resultado e o "esquema matador" do treinador Jair Pereira. "No Mineirão a marcação forte será mantida", prometeu o técnico. A estratégia do treinador foi endossada pelo atacante Betinho. "O Olimpia não parte para cima, eles ficam tocando a bola em seu campo defensivo e quando menos se espera partem em contra-ataques. Não podemos deixá-los jogar. Eles não podem nem pensar", declarou.

Enquanto a Federação Mineira adiava a partida do Cruzeiro contra o Trespontano, no domingo pelo Campeonato Mineiro, o Olimpia saiu derrotado para o Libertad, por 3 a 1, no Campeonato Metropolitano e entrou em crise. Os paraguaios prometiam se reabilitar no confronto no Mineirão. Um prêmio de US$ 5 mil (Cr$ 50 milhões) foi oferecido para cada jogador pela conquista da vaga para a decisão.

"Eles tinham que sair da crise lá no Paraguai e não vai ser aqui que eles conseguirão se reabilitar", rebatia o meia Boiadeiro. Sobre o prêmio de US$ 2 mil oferecido pela diretoria cruzeirense pela classificação, Boiadeiro comentou: "Não é o lado financeiro que nos motiva. É importante para o jogador o lado profissional. Uma conquista importante como a Supercopa valoriza em muito o nosso currículo".
O meia Luiz Fernando era dúvida para o jogo. O meia sofreu contratura muscular na partida em Assunção. Já o lateral direito Cáceres havia sofrido um problema estomacal antes do jogo contra o Libertad e sequer veio a Belo Horizonte.

Além de uma vaga para a decisão, a partida também valeria um recorde para a torcida do Cruzeiro. A meta era bater o recorde de arrecadação do clássico Palmeiras e Corinthians em que as bilheterias renderam CR$ 1,8 bilhão. Para superar a marca, a diretoria cruzeirense aumentou ainda mais os valores dos ingressos. A geral passou a custar Cr$ 15, a arquibancada Cr$ 25, a cadeira Cr$ 50, e o setor especial Cr$ 80,

O Cruzeiro começou a partida com o esquema matador. Logo, aos dois minutos, Renato Gaúcho foi lançado por Luiz Fernando e foi derrubado na área. Paulo Roberto converteu o pênalti e abriu o placar. No lance Renato gaúcho sentiu a pancada, mas permaneceu em campo.

O Cruzeiro pressionava o Olimpia em seu campo e criava chances para ampliar, mas errava nas finalizações. O Olimpia passou a fazer tabelas rápidas para sair da forte marcação do Cruzeiro. Boiadeiro quase ampliou o placar ao aproveitar um rebote do goleiro Goycoechea, mas o chute saiu rente a trave esquerda.

No entanto, o Olimpia chegaria ao empate num contra-ataque rápido. Amarilla recebeu um lançamento de González e mandou para as redes. No entanto, o centro-avante paraguaio sentiria uma contusão muscular e deixaria o campo aos 30 minutos. O criador da jogada do gol de empate, Gabriel Gonzalez, também pediria substituição, no final do primeiro tempo.
O Cruzeiro voltou melhor no segundo tempo, mas errava ao insistir nas jogadas com bolas aéreas. Aos 14 minutos, Renato sofreu pênalti não marcado pelo árbitro. Quatro minutos depois, Roberto Gaúcho recebeu cruzamento de Nonato na área, ele dominou no peito e mandou um balaço pro fundo das redes explodindo a nação cruzeirense no Mineirão.

Minutos após o gol, Renato Gaucho não aguentou as dores na panturrillha e saiu para a entrada de Tôto. Empolgado com o incentivo da torcida, o Cruzeiro partiu pra cima e criou várias chances para ampliar. No entanto, foi o Olimpia que chegou ao gol de empate com o zagueiro Ramirez.

Os descontos da partida foram dramáticos. O Olimpia quase chegou a virada numa fnalização de Cavallero que obrigou Paulo Cesar a fazer grande defesa. O meia Boiadeiro deu o troco e por pouco não marca o gol do Cruzeiro.

Ao final do apito do árbitro, a nação cruzeirense comemorou a classificação para a final e o recorde de renda do futebol brasileiro.
CRUZEIRO 1 x 0 OLIMPIA (PAR)
04/11/1992 (Qua-22h) - Supercopa (semifinal/G2/1ª) - Defensores del Chaco (Assunção, Paraguai)
Público: 23.677 ou 23.267 ($169.567.000,)
Arbitragem: Jorge Orellana/EQU (Alfredo Rolas/EQU e Hilton Villavicencio/EQU)
Gol: Luiz Fernando 35’
Cruzeiro: 1-Paulo César; 2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 15-Arley Alvares e 6-Nonato; 8-Douglas, 21-Rogério Lage, 17-Luiz Fernando (16-Edson/76’) e 9-Betinho; 7-Renato Gaúcho e 11-Roberto Gaúcho. T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 13-Zelão, 14-Cleison, 23-Tôto
Olimpia: 1-Sergio Goycochea; 2-Virginio Cáceres, 3-Mario César Ramírez, 13-Celso Ayala (21-Miguel Sanabria/46’) e 4-Silvio Suárez; 8-Adolfo Jara Heyn, 6-Vidal Sanabria, 24-Romerito e 19-Mauro Caballero (11-Adriano Samaniego/46’); 7-Gabriel González e 9-Raúl Amarilla. T: Roberto Perfumo
Suplentes: 12-Ricardo Tavarelli, 5-Isidro Nuñez, 10-Jorge Campos
CA: Renato Gaúcho, Paulo César, Luiz Fernando (Cru); Gabriel Gonzales (Oli)
CRUZEIRO 2 x 2 OLIMPIA (PAR)
11/11/1992 (Qua-21h30) - Supercopa (semifinal/G2/2ª) - Mineirão
Público: 83.724 (Cr$ 2.187.025.000,00)
Arbitragem: Alberto Tejada/PER (Luiz Seminário/PER e José Arana/PER)
Gols: Paulo Roberto (pênalti) 3’ (1-0), Raúl Amarilla 16’ (1-1), Roberto Gaúcho 64’ (2-1), Mario Ramírez 89’ (2-2)
Cruzeiro: 1-Paulo César; 2-Paulo Roberto, 4-Célio Lúcio, 3-Luizinho e 6-Nonato; 8-Douglas, 10-Boiadeiro, 17-Luiz Fernando (21-Rogério Lage/46’); 9-Betinho, 7-Renato Gaúcho (23-Tôto/70’) e 11-Roberto Gaúcho. T: Jair Pereira
Suplentes: 12-Gilberto, 23-Tôto, 15-Arley Alvares, 16-Édson
Olimpia: 1-Sergio Goycochea; 5-Isidro Nuñez, 3-Mario Ramírez, 13- Celso Ayala e 4-Silvio Suárez; 8-Adolfo Jara Heyn, 6-Vidal Sanabria, 24-Romerito e 19-Mauro Caballero; 7-Gabriel Gonzalez (10-Jorge Campos/36’) e 9-Raúl Amarilla (11-Adriano Samaniego/30’). T: Roberto Perfumo
Suplentes: 12-Ricardo Tavarelli, 15-Juan Ramón Jara, 16-Felipe Peralta
CA: Boiadeiro, Paulo Roberto (Cru)
Público presente: 89.022
Twitter: @henriqueribe