sábado, 11 de março de 2017

Em 1944 o Cruzeiro calou o choro do America com uma goleada

O atacante Niginho disputa uma bola pelo alto contra o goleiro Aldo do América. O atacante marcou dois gols na goleada por 5 a 1.

Carlos Henrique

Um fato inusitado na história do confronto entre Cruzeiro e América aconteceu no Campeonato da Cidade de 1944. As equipes se enfrentaram pelo returno, em 25 de junho, no estádio do Barro Preto. O Cruzeiro dividia a liderança com o Atlético, com 11 pontos, e o América vinha na quarta colocação com 7. O clássico terminou empatado em 3 a 3, mas o América não se convenceu do resultado e recorreu ao Tribunal de Penas da Federação Mineira. Alegou erro de direito do árbitro Chico Trindade no lance do segundo gol do Cruzeiro. O recurso foi aceito, o jogo foi anulado e outro foi remarcado. As equipes entraram em campo, novamente, e o Cruzeiro goleou por 5 a 1. Mais do que reconquistar a liderança, o melhor do resultado foi calar de vez o choro dos americanos.

O clássico de 25 de junho valia pela 12a rodada do Campeonato e o América venceu o primeiro tempo por 3 a 1. O lance do segundo gol do América foi inusitado. O árbitro Chico Trindade marcou um sobre passo cometido pelo goleiro Geraldo II. Desconhecendo a regra, os jogadores cruzeirenses não sabiam que poderiam armar uma barreira na linha do gol. Geraldo II, sozinho, nada pode fazer diante da cobrança de Gabardo.

O Cruzeiro foi pra cima no segundo tempo e arrancou o empate em 10 minutos. No entanto, não conseguiu aproveitar a expulsão do goleiro americano Aldo, aos 60 minutos. Como as substituições ainda não eram permitidas, o atacante Edgar foi para o gol. Ainda assim, o ataque cruzeirense não conseguiu chegar ao gol da virada.

Logo que o jogo encerrou, os dirigentes americanos anunciaram que entrariam com um recurso. Os alviverdes alegaram que o árbitro Chico Trindade havia cometido um "erro de direito" no lance do segundo gol do Cruzeiro. É que o atacante Niginho foi derrubado na área e o árbitro apitou o pênalti, mas o atacante concluiu o lance na sequência e o gol foi confirmado. O Tribunal de Penas acatou o recurso do América e suspendeu Chico Trindade por 30 dias. O jogo teve de ser disputado, novamente, em outra data: 6 de agosto.

Curiosamente, durante aqueles dias, o Cruzeiro perdeu o treinador Bengala, que aceitou o convite para dirigir o Botafogo. Devido às dificuldades financeiras para investir na contratação de um treinador renomado, o clube surpreendeu e convidou o próprio árbitro Chico Trindade para dirigir a equipe. Por estar suspenso não pôde assinar contrato e assumiu a função em "caráter particular". Sua única experiência como treinador havia sido no time amador do Romeo de Paoli. A torcida cruzeirense reprovou a contratação. Não porque Chico era árbitro, mas por ele ser conselheiro do Atlético.

Independente disso, Chico fez a sua estreia, justamente, no clássico remarcado contra o América, em 6 de agosto, no Barro Preto. E o Cruzeiro agradeceu “a nova chance criada” pelo América. Numa atuação impecável do atacante Niginho, o time goleou por 5 a 1 e voltou a colar no rival Atlético na liderança da tabela. Valeu, América!

CRUZEIRO 3 x 3 AMÉRICA
25/06/1944 - amistoso - Barro Preto
Renda: Cr$ 20.660,
Árbitro: Francisco Trindade
Gols: Alfredinho 40 segs. (0-1), Gabardo 28’ (0-2), Braguinha 34’ (1-2), Gabardo (falta) 44’ (1-3), Niginho 53’ (2-3), Alcides 55’ (3-3)
Cruzeiro: Geraldo II, Gérson, Bituca, Bibi, Juca, Juvenal, Braguinha, Selado, Niginho, Ismael, Alcides. T: Bengala
América: Aldo, Gregório, Wilson, Zezé, Tiago, Carlinhos, Edgar, Alfredinho, Gabardinho, Gabardo, Noronha. T: Satiro
Expulsos: Niginho (C); Aldo (A)

CRUZEIRO 5 x 1 AMÉRICA
06/08/1944 - Campeonato da Cidade - Barro Preto
Renda: Cr$ 25.757,
Árbitro: Fioravante D’Angelo (RJ)
Gols: Niginho 10’, Niginho 28’, Zezé 44’, Braguinha 55’, Alcides 61’, Braguinha 85’
Cruzeiro: Geraldo II, Gérson, Bituca, Bibi, Juca, Juvenal, Braguinha, Lazzarotti, Niginho, Ismael, Alcides. T: Francisco Trindade
América: Aldo, Gregório, Armond, Gilson, Melo, Carlinhos, Edgar, Zezé, Gabardinho, Alfredinho, Noronha. T: Satiro
Expulso: Gregório (A)
*Jogo remarcado da 12ª rodada. O América sugeriu ao Cruzeiro a inversão do mando de campo para o seu estádio que, por ter maior capacidade de público, proporcionaria uma maior arrecadação. O Cruzeiro considerou o aspecto moral do esporte acima da questão da renda e recusou a proposta.
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